O técnico da seleção brasileira revela na entrevista a seguir que, mesmo pressionado, jamais pensou em pedir demissão. E parece um pouco mais maleável e disposto a trabalhar com zelo a sua imagem, desgastada pela irregularidade da equipe na temporada e por um humor até então indomável. Dunga analisou o período em que dirige a seleção e admitiu que, às vezes, não mede as palavras e, por isso, cria situações embaraçosas para si. O capitão do tetra exige a quebra do tabu de 20 anos sem vitória sobre Portugal, quarta-feira, às 22h, na reabertura do Estádio Bezerrão, no Gama, e prevê um belo tira-teima entre Kaká, atual melhor do mundo, e Cristiano Ronaldo.
O Brasil não vence Portugal há quase 20 anos. É um atrativo a mais para o amistoso de quarta-feira?
O Brasil tem a obrigação de vencer, é sempre assim. Esse dado demonstra a importância da partida e é motivação a mais para os jogadores. E vai ser o primeiro amistoso contra uma seleção européia, no Brasil, depois de vários anos.
O que espera do confronto Kaká x Cristiano Ronaldo?
Kaká é o atual melhor do mundo e Cristiano Ronaldo está bem cotado para a eleição do fim de ano da Fifa. O atacante português deixou de ser um jogador só de drible. Agora, é mais objetivo, aliou força e velocidade à vontade de fazer gol. Vai ser bom vê-los em ação, mas há outros que podem elevar o nível do jogo.
Você chegou à seleção em agosto de 2006 com um discurso claro da CBF: mudança de atitude dos atletas depois de alguns excessos na Copa da Alemanha. Conseguiu?
Não posso falar como era antes. Mas posso dizer que na seleção não houve polêmica nestes dois anos e três meses. Os jogadores comportam-se em altíssimo nível. Na viagem para a Venezuela, em outubro, houve vários percalços, sem nenhum estresse no grupo. Isso mostra maturidade, profissionalismo e como gostam de estar na seleção brasileira.
Qual foi seu melhor momento até agora na seleção?
A conquista da Copa América (em 2007, na Venezuela). Era nossa primeira competição oficial, tivemos duas semanas para trabalhar, organizar tudo direitinho e fomos crescendo na competição.
E a fase mais difícil?
Aquela seqüência contra Venezuela (0 x 2), Paraguai
(0 x 2) e Argentina (0 x 0) (em junho deste ano) – foi bem delicada. A gente já sabia que ia ter problemas, talvez nem tanto naquela proporção. Mas sabia que ia encontrar dificuldades com jogadores que estavam sem jogar há 30 dias.
Ainda existe amor à camisa ou é visão nostálgica?
Existe, sem dúvida. Quando os jogadores ficam fora, a ansiedade é grande de voltar à seleção. Noto isso claramente.
Por que Ronaldinho não consegue ter uma seqüência?
Ele vem de lesões, de um tempo parado, está se recuperando. Tem uma massa muscular forte, quanto mais jogar, mais fácil para readquirir a forma. No Barcelona, e agora no Milan, o Ronaldinho treina o ano todo. E o que acontece muitas vezes é que assistimos na Internet e na tevê aos melhores lances do Ronaldinho, editados, de dois minutos. Aquilo ali não representa os 90 minutos. O cara é um ser humano, nem sempre estará no topo, 100% de condições.
Os atletas, hoje, pagam que fazem fora de campo?
O atleta tem de aliar as duas situações. Saber que é um personagem e as pessoas vão cobrar, mais ainda se não corresponder em campo. Tem que se preservar.
Como gerencia a pressão?
Não pode se preocupar com o que fulano fala. As pessoas que falam, em sua maioria, nunca comandaram time, seleção. Tem que acreditar no trabalho e seguir.
Existe campanha orquestrada pela sua saída?
Com todos os ex-treinadores da seleção ocorreu a mesma coisa. Quando tinha o Pedro, havia um grupo que era mais chegado ao Pedro. Quando saiu o Pedro e entrou o João, aqueles que estavam com o Pedro ficaram revoltados. E os outros não. Então é normal. Vou fazer meu trabalho e vamos jogar. É o jogo, não tem essa de vou ganhar antes, vou perder. Mas tem gente que fica falando mal, orquestrando. O que vale é o campo, é o jogo.
No auge das críticas e dos protestos da torcida, chegou a pensar em pedir demissão?
De forma nenhuma. Naquele momento eu já estava entendendo como funcionava o outro jogo. A seleção não pode ir para um jogo e uma semana antes você ver publicado que aos 10 minutos o time vai ser vaiado. Então você já vai vacinado.
A classificação para a Copa pode se tornar menos tensa?
Vai ser sempre tensa. Quando joga fora, você é vaiado, xingado no aeroporto, no hotel; as dificuldades são imensas. Vamos jogar com Uruguai fora e Bolívia, na altitude, uma guerra. Mas estamos em segundo lugar.
O que mudou do Dunga de 1994 para o Dunga 2008?
Meus conceitos básicos. Agora, sou maduro. Em 94, era um tipo de liderança. A responsabilidade de controlar tudo cabia ao Parreira. Hoje, essa atribuição é minha. Fui até mal interpretado quando falei que era bem resolvido. É profissionalmente. Se amanhã tiver que cortar capim, não tem problema. Eu vou começar do zero. Nunca me preocupei com emprego, mas com trabalho.