Menu
Economia

Se não fizer ajuste fiscal no primeiro ano, vai pegar fogo na mão de Lula, diz Mendonça de Barros

O economista diz que o Brasil precisa avançar na governança pública e privada, encarar o problema fiscal e parar de proteger a indústria nacional

Redação Jornal de Brasília

27/07/2026 5h50

brazil debt repayment

Foto: EVARISTO SA / AFP

Na avaliação do economista José Roberto Mendonça de Barros, caso consiga uma nova reeleição este ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve encaminhar algum tipo de ajuste das contas públicas em seu quarto mandato. Sem avançar na questão das contas públicas, “já pega fogo na mão dele no primeiro ano”.

Mendonça de Barros avalia que Lula “não vai ser nunca um cidadão que vai acreditar nas virtudes de um ajuste fiscal”, mas é dono de um pragmatismo que o faz entender a necessidade de promover algum acerto das contas públicas. “Ele é inteligente o suficiente para saber que não vai dar para entrar com esse mesmo discurso distributivista.”

O economista diz que o Brasil precisa superar quatro pontos fundamentais que se consolidaram nos últimos anos e que precisam ser endereçados ou superados para que o País volte a crescer: avançar na governança pública e privada, superar a tese de que o modelo petista é capaz de trazer crescimento sustentável, encarar o problema fiscal e parar de proteger a indústria nacional.

“Está claro que a gente tem de superar tudo isso para poder ir adiante”, afirma.

A seguir, trechos da entrevista concedida ao Estadão.

Na área fiscal, a sinalização do próximo governo tem de ser imediata ou o ajuste pode ser gradual?

O ideal seria, evidentemente, uma coisa mais forte. Digamos, 3% do PIB, uma coisa assim. Mas, como ninguém vai acreditar, especialmente se for o cenário de reeleição e com o Congresso, certamente arisco, eu estou em companhia do (Fabio) Giambiagi e de outros que são profissionais dessa área, mais do que eu, e imagino alguma coisa, tipo 2%, para ser realizada mesmo. E, para poder ter um número dessa natureza, uma coisa que vai ser chave é não fazer os ganhos reais por dois anos do salário mínimo e a indexação das contas de saúde e educação. Precisa de um período de dois anos que se reajusta pela inflação e não dá ganho real, mesmo que seja o cenário de reeleição. Evidentemente, para o Gabrielli (José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras e coordenador do programa de governo de Lula) e seus amigos, isso não existe. Está uma brigaiada dentro do PT, mas isso não me surpreende, porque, no PT, quem manda é o Lula.

E um ajuste pela oposição?

Todo mundo vai acreditar que vai haver um ajuste fiscal, que pode ser melhor ou pior. E, provavelmente, vão prometer até mais do que 2%, mas não sei se entregam porque têm as condições políticas para tanto. Mas, se for a reeleição, o nosso raciocínio é o seguinte: o Lula, obviamente, estará governando com o único pensamento em como é que ele vai entrar na história. Ele sabe que é o último mandato dele. É extraordinário ter quatro mandatos; nunca tivemos nada parecido com isso e, talvez, passe um século antes de ter outra coisa desse tipo. Ele é inteligente o suficiente para saber que não vai dar para entrar com esse mesmo discurso distributivista que está aí colocado. Ele poderia fazer alguma coisa nessa direção.

Eu acho que seria perfeitamente factível um quarto governo fazer algum ajuste no começo. O importante é menos o tamanho. É a credibilidade do que vai ser feito. Está na mão dele. Tem gente que acha que ele não fará jamais. Eu acho que ele vai começar a fazer, porque sabe que, se não fizer, já pega fogo na mão dele no primeiro ano.

O mercado de juros já antecipa um cenário mais difícil?

Ela está antecipando isso. Se não tiver nada mais relevante, partindo de uma situação como essa, que não vai melhorar muito, vem a discussão de dominância fiscal. Se entra numa situação como essa, pode ficar difícil logo de partida. Não me parece que ele (Lula) não perceba isso, que não tenha a capacidade de fazer. Não vai ser nunca um cidadão que vai acreditar nas virtudes de um ajuste fiscal, mas acho que é muito mais um pragmático que percebe que vai ter de fazer isso, senão ele não vai governar. E não vai mesmo. Então, eu acho que um ajuste fiscal de dois, dois e pouco (como porcentagem do PIB) — que não é pouco — tem, na partida, uma certa gordura para queimar. Se, por emergência, deixar de dar, digamos, por dois anos, ganhos reais (no mínimo), um governo de reeleição pode dizer: “Olha, eu já fiz tantas coisas distributivas, mas agora é uma questão de emergência e temos de dar uma rearrumada na questão fiscal”.

O que mais tem de fazer parte do ajuste das contas públicas?

Entra também essa parte das revisões desses cadastros. Estão todos estourados, todos furados. Estão sendo usados, em boa medida, para capturar voto, para fazer política de baixo escalão. O INSS mostrou isso. E um exemplo que sempre se dá: tem 250 mil pescadores artesanais no Brasil, mais ou menos, segundo IBGE, mas tem 1,4 milhão de bolsas (de seguro-defeso). Também tem de ter algum esforço para melhorar as regras de governança. Tem de voltar para trás, de algum jeito, nessa montanha violentíssima dessas emendas que, na maioria das vezes, são, basicamente, uma corrupção cada vez mais grosseira. Isso vai ter de ser enfrentado. E só pode fazer isso no primeiro ano de um governo. Não tem uma ilusão de cortar tudo isso, mas tem de ter uma redução e uma efetiva melhora nas regras, que é isso que o Supremo está tentando fazer. Desculpe a expressão, mas é uma avacalhação o que virou esse negócio das emendas. É um disparate absoluto e que só tem no Brasil. Eu sei que não é fácil, mas isso vai ter de estar junto com a estrutura fiscal.

E não dá para repetir, no ano que vem, essa brincadeira dos Correios. Não anda nada. Mesmo que sejam boas pessoas, eu não duvido que sejam — não as conheço —, mas ninguém tem a experiência de um turnaround de uma empresa desse tamanho. Vai torrar os R$ 20 bilhões e vão faltar os outros R$ 20 bilhões. Vai ter de enfrentar isso. Não dá para ficar brincando de ideologia. E, nesse caso, ideologia barata, porque não é verdade que só os Correios que garantem que no Brasil inteiro chegam coisas. Você pode montar certos programas, certas estruturas para essa direção. Isso é o exemplo de uma coisa que definitivamente não dá para continuar só porque é caro às tradições ideológicas do PT.

É fundamental que o Lula e seu partido percebam, caso sejam reeleitos, que, se não tiver uma coisa séria de ajuste fiscal no primeiro ano, não vai voar. Não tem gogó, discurso ou improviso que vá resolver. E junto com isso tem de vir algumas coisas de recuperação mínima da governança pública. Se fizer um ajuste com 2% do PIB, com um pouco mais de imaginação, dando espaço para gente técnica, gente do ramo poder fazer alguma coisa, e se tiver credibilidade, os mercados vão acabar se ajustando, ainda que não seja o sonho. Essa eleição é uma eleição de transição.

Por que o sr. considera como uma eleição de transição?

Nós não teremos em 2030 os dois cabeças de chave dessa eleição por razões diferentes. Estará necessariamente aberta para uma nova geração. Mas também não é sentar com fogo na floresta para esperar 2030. Não dá para esperar. No ano que vem, vai ter de acontecer alguma coisa, senão vamos ver coisas muito mais complicadas. Essa combinação de deterioração fiscal, deterioração da governança e investimento e produtividade que não crescem vai levar a uma piora para todos os lados.

O cenário do sr. é muito duro, mas não é o cenário da dominância fiscal e da saída de dólar…

Não é esse cenário. E eu acho que, embora as preferências sejam óbvias da maioria dos empresários, o realismo acaba prevalecendo. Eu já estou escutando, falando com muito empresário que alguns até que, francamente, detestam o governo atual, estão comprando esse raciocínio: se for eleito, está muito fácil pôr fogo no circo. Não fará.

E tem um cenário global mais difícil, não?

É um mundo com inflação mais alta, taxa de juros mais alta e ainda pode ter pela frente um choque mais forte do petróleo, porque o Trump se entalou na guerra e não consegue sair. E pode ter — é impossível prever, mas eu acho que está no horizonte não muito longo — um ajuste no mercado financeiro americano de grandes proporções. Tem muito gás inflando aquele balão. Nós estamos vivendo em uma mania. A IA (inteligência artificial) é uma mania no sentido de que só se pensa nisso. Não é que a IA não vai ser relevante. E tem o El Niño, que é global. Ele puxa para cima a inflação e para baixo a atividade. Não tem como ser um cenário simples. É bem difícil. Agora, por outro lado, se tiver uma resposta mínima na área fiscal e na área de governança, eu acho que os mercados abraçam. Eu acho que os empresários abraçam. Num certo sentido, é uma oportunidade, que eu não sei se vai ser percebida ou não.

E como o sr. vê a situação da oposição na disputa eleitoral deste ano?

Do lado da oposição, não está certo que o cenário de hoje seja o definitivo. O principal opositor é uma candidatura tão fraca, tem tantos problemas que não dá nem para dizer o que vai ser o cenário do segundo turno. O mais provável é que seja o que nós estamos vendo, mas pode ser diferente. Está muito fraca essa candidatura — e cada vez tem mais gente dizendo que não dá conta. De repente, pode ter uma mudança, um aparecimento de um terceiro (nome) e mudar até o cenário do prospecto da reeleição.

Um cenário de oposição fraca ganhar eleição me parece pouco provável. Um turnaround completo para quem é da oposição é difícil, tem pouco tempo, mas não é impossível. E pode acontecer. E aí pode mudar tudo. De repente, imaginar um cenário em que um Caiado desponta vai dar um otimismo extraordinário. O câmbio vai fechar. É difícil, mas não é impossível, porque nós já tivemos essa surpresa, como foi o Collor e o próprio Bolsonaro, em 2018.

Se não vier um sinal mínimo dos ajustes mencionados pelo sr., qual pode ser a consequência de um cenário mais complicado?

Se começar a desconfiar, a primeira coisa que acontece é o câmbio desvalorizar muito, porque aí tem uma indução para a saída de capital. Se o câmbio sobe, a inflação vai junto. E aí tem de começar a encurtar o duration da dívida, só pode vender a juros cada vez mais elevados e papel curto. Não tem muito como evitar, aí sim, de quase que impor um ajuste fiscal, porque as coisas levarão nessa direção.


Nesses anos, no meu entendimento, algumas coisas se consolidaram. Na questão da governança, é o detalhamento de todos os Vorcaros da vida. A gente sabe que os mesmos de outras vezes estão querendo construir uma história de passar pano para isso. A imprensa foi fenomenal para expor o básico dessa piora da governança em todos os sentidos, desde a corrupção pura e simples até o crime organizado e suas consequências. Número dois: acabou essa ilusão que o PT tentou vender de que tem um modelo petista que traz crescimento sustentado e reverte a desindustrialização. Com as exceções que a gente já conhece, na média, o País não sai do lugar.

Terceiro, temos um problema fiscal. E é o fiscal, objetivamente, que se expressa na dívida pública. Ninguém mais se aventura a dizer que não tem problema fiscal. Quarto, não dá mais para manter a economia fechada. Não dá para querer proteger a indústria. Isso naufragou. E naufragou porque a indústria brasileira está muito fraca. E não é só por causa do custo do Brasil. É porque a produtividade não cresce. Esses quatro pilares têm mostrado que nós chegamos num certo limite. A impressão que a gente tem é que é o maior legado que está ficando. Não que esteja bem. Ao contrário. Mas está claro que a gente tem de superar tudo isso para poder ir adiante.

O sr. imagina que tudo isso possa acontecer?

Ninguém sabe, eu também não sei. Torcer, todos nós torcemos, mas, para ninguém se enganar, que, se (a situação) continuar como está, vai pôr fogo no circo. E isso é reforçado por tendências globais que tornam esse cenário mais imperioso.

Quais são essas principais tendências?
Uma é o aquecimento. Estamos vendo tudo de mal que o aquecimento faz. E é no mundo inteiro. Não tem mais cético de clima, não é possível que tenha cético de clima. Segundo, uma revolução tecnológica, de verdade, com a inteligência artificial, que só faz aumentar a nossa distância em relação à média. E terceira, essa nova realidade da geopolítica. Você sai da cooperação multiestado e vai para um sistema de disputa de liderança, com dois líderes globais e uma confusão generalizada. Tem os dois polos, todo mundo brigando e uma revolta dos médios. É importante porque nós nos incluímos nos médios. Obviamente, também tem o Canadá, a Austrália, a comunidade europeia.

Não é pouca coisa que nós temos pela frente e tudo isso converge para 2027. Sempre tem muito em jogo, mas, dessa vez, é muito o que está em jogo. E o que me faz lamentar é que a única coisa que não se discute em campanha eleitoral é o que vai ser feito com o País. Não pode nem mostrar quem vai fazer. Tem de tirar o time rapidinho de campo. É lamentável. Significa que vai ser feito às pressas.

Estadão Conteúdo

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado