Liberdade, independência e solitude. Celebrado neste sábado (15), o Dia dos Solteiros vai ser comemorado na capital com ações especiais em bares de Brasília. Atualmente, na noite brasiliense, as dinâmicas de “match” ao vivo ganham espaço entre quem quer — ou não — alterar o status de relacionamento. Seja por escolha própria ou por ainda não ter encontrado o par ideal, o Jornal de Brasília conversou com especialistas e brasilienses para entender como é a vida de solteiro, além das vantagens, desafios e transformações desse estilo de vida.
A cena dos barzinhos de Brasília sempre foi um convite para os solteiros interagirem, mas datas como esta, voltadas especificamente para esse público, são uma oportunidade para reunir amigos e interagir com gente nova. Esse é o tema ideal para experiências analógicas e criativas como o Catálogo dos Solteiros, fundado pela empresária Samantha Hewsen. Ela conta que essa é uma brincadeira que faz para tentar conectar os solteiros que estão no mesmo bar.

A iniciativa está completando um ano e surgiu da percepção de Samantha de que o público estava ficando saturado dos aplicativos. “Eu fotografo o pessoal e criei literalmente um catálogo físico de solteiros, onde as pessoas deixam a foto e, atrás, fica o contato”, explicou. Entre as informações pedidas para acrescentar no verso da foto estão os nomes de usuário nas redes sociais, orientação sexual e idade.
É como se a pessoa estivesse olhando um catálogo desses aplicativos de relacionamento, mas os matches são feitos ao vivo. “Ele é mais analógico, mas também é mais caloroso, tem mais contato humano, o que os aplicativos geralmente não têm.” Para Samantha, essa é uma forma de as pessoas resgatarem a paquera natural. “Aquela coisa do olhar, do olho no olho, trocar ideia, chamar a pessoa que está do lado para conversar”, complementou.
Geralmente, Samantha pode ser vista com o catálogo em um bar muito movimentado no Guará I, na praça da Quadra 14, o Toinzinho. “Não é nada exclusivo, porque eu faço em outros bares de Brasília e às vezes o pessoal me convida para eventos de solteiros”, salientou. No dia 15 de agosto, o ponto de encontro dos solteiros e solteiras que quiserem participar deste que vai ser o grande catálogo especial do dia será no Toinzinho.
Ao longo desse primeiro ano em funcionamento, Samantha já viu alguns dos matches que ajudou a juntar se desenvolverem. “Tem um casal em específico que eu acompanho nas redes. Eles estão há alguns meses namorando. Mas direto nos bares, com a ajuda do catálogo, eu vejo o pessoal sentado na mesma mesa, conversando, trocando beijo mesmo.”
Para participar, a pessoa contribui com R$ 20 para tirar a foto na hora — ou para mandar uma foto, se preferir. “Essa foto entra no catálogo do dia, que é um catálogo virtual. Só tem acesso quem está participando da brincadeira naquele dia, no mesmo bar”, declarou. Mas toda semana tem o bônus do catálogo físico, que ela explica ser a segunda chance de se conectar com alguém. “Ao longo da semana, eu passo nos bares, geralmente de quinta a sábado. E eu anuncio sempre nos stories do meu Instagram onde eu vou estar e a partir de que horas, que é para o pessoal se programar”, contou.
No primeiro semestre de 2027, o aplicativo do Catálogo dos Solteiros vai ganhar vida: o Amora. “Eu já tenho um projeto em andamento de um aplicativo que estou desenvolvendo para fazer exatamente o que faço hoje: conectar as pessoas reais e em tempo real”, frisou. O aplicativo vai funcionar dentro dos bares e eventos, para as pessoas se conectarem e saírem de trás das telas. “O conceito do Amora são duas palavras: amor e agora, que são as coisas que a gente busca: a conexão em tempo real.”
Programação e celebração leve
Muitos estabelecimentos aderiram à temática comemorativa do dia 15, como o Ordinário Bar & Música, com programações especiais para este sábado e entrada gratuita até às 18h, reunindo gastronomia, preços diferenciados e atrações musicais como o pagode Du Dudu, comandado por Dudu 7 Coisas e o grupo Sambandona. “Essa é uma data que conversa com a proposta do Ordinário de ser um espaço de encontro e celebração”, disse Carlos Eduardo Miranda, um dos sócios do local.
Para ele, o Dia dos Solteiros passou a ter um novo significado na noite brasiliense. “A escolha da temática vem justamente da percepção de que a data deixou de ser associada apenas à ideia de ‘estar sem namorado’ e passou a representar liberdade, autonomia e a oportunidade de aproveitar bons momentos com amigos, família ou até de conhecer pessoas novas”, destacou.
Carlos considera que a ideia é transformar a data em uma celebração leve e descontraída. “A intenção é criar um ambiente acolhedor e descontraído em que as pessoas possam circular, conversar, ouvir música, comer bem e aproveitar a programação sem a pressão ou os clichês associados a uma data romântica.” Ele deseja que as pessoas celebrem o fato de estarem com quem as faz bem, sejam amigos, familiares ou até mesmo sozinhas. “O foco está nas companhias, nos encontros e na experiência de viver o sábado de forma leve.”
Essa busca por dinâmicas de aproximação mais espontâneas se conecta a iniciativas como o Captou, projeto focado em matches ao vivo que vem ganhando espaço entre quem quer mudar o status de relacionamento — ou simplesmente socializar sem as pressões do ambiente virtual.
Autonomia emocional e saúde mental
Mas, longe dos bares, o dia a dia de quem está só por opção — ou por ainda não ter encontrado o par ideal — envolve questões emocionais profundas e expectativas culturais. Segundo a psicanalista Ana Paula Gimenez, é fundamental diferenciar a vontade genuína de compartilhar a vida da mera urgência de preencher um vazio social ou responder a cobranças externas.
“Uma pergunta importante é: ‘Eu quero me relacionar ou quero deixar de estar solteira?’. Quando existe um desejo genuíno de relacionamento, há interesse pela troca e pela construção de uma vida compartilhada, sem abandonar a individualidade.” Já quando a busca nasce da pressão externa, a especialista considera que surge a sensação de urgência de ser socialmente validado. “Mas viver essa solitude — estar bem consigo sem experimentar isso como abandono — permite que conexões futuras sejam construídas pelo desejo de compartilhar, e não pelo medo de ficar só”, analisou.
Ela considera que não se pode afirmar que estar solteiro, por si só, faça bem ou mal à saúde mental. “Existem pessoas profundamente solitárias dentro de relacionamentos e pessoas solteiras que possuem vínculos afetivos sólidos, uma vida social rica e uma enorme sensação de pertencimento”, comentou. Ana Paula ressalta que um dos maiores ganhos de quem está solteiro é poder desenvolver a autonomia emocional e um conhecimento mais profundo sobre si mesmo. “O desafio aparece quando a autonomia se transforma em isolamento ou quando a solidão é vivenciada como rejeição”, frisou.
Esse equilíbrio emocional e o desenvolvimento social foram pontos que a psicóloga clínica Gabryella Luna também levantou sobre a solteirice. Segundo ela, esse status traz uma abertura significativa para o desenvolvimento pessoal, mas a forma de vivenciá-lo varia para cada indivíduo. “A solteirice pode abrir mais espaço para autonomia e independência, permitindo que a pessoa direcione mais atenção para carreira, amizades, família, rotina e autocuidado. Mas isso não acontece da mesma forma para todos”, pontuou.
Gabryella afirmou ainda que, para além da percepção individual de si quando se está solteiro, existe o estigma social atravessado por questões de gênero. “Socialmente, a solteirice masculina muitas vezes é associada a foco na carreira e independência. Para as mulheres, ainda pode ser vista como sinal de desamparo ou como algo que precisa ser ‘resolvido’”. Ela acrescentou que essas expectativas externas podem impactar a autoestima e gerar autocrítica, comparações e sentimentos de inadequação, rejeição e solidão. “Quando a pessoa passa a construir sua autoimagem a partir dessas cobranças, pode se distanciar daquilo que realmente deseja para a própria vida.”
Impacto no estilo de vida e no mercado imobiliário
Buscando um estilo de vida próprio e se distanciando das indiretas dos familiares, a analista de cadastro júnior Sara Gabryelle Mendes Macau, 24 anos, quer evoluir profissionalmente e focar mais em si. Solteira, ela mora sozinha com duas gatinhas que adotou recentemente. Ao ser perguntada sobre o status de relacionamento, Sara respondeu que é um combo de não achar ninguém que se encaixe no estilo de vida que almeja agora com seus desejos de viajar, conhecer novos lugares, se divertir e aproveitar o máximo de coisas que a vida oferece.

“Eu acabo focando mais em mim e, consequentemente, acho até divertido estar nesta aventura ‘solo’ — nem tão solo, porque estou sempre com as minhas amigas”, destacou.
Ela valoriza a rotina que criou ao morar sozinha. “Eu chego a hora que quero, saio na hora que quero, minha casa permanece da maneira que eu quero — e das minhas gatas”, brincou. Para ela, a melhor parte são os momentos de silêncio pós-faxina, apesar de às vezes se sentir sozinha. “Às vezes bate um tédio, uma vontade de compartilhar algo com alguém”, disse.
Ela contou que, certo dia, ao voltar para casa em uma corrida por aplicativo, inventou para o motorista que tinha um namorado por questão de segurança. “Inventei uma rotina de como agimos, mas cheguei em casa e fiquei um pouco triste por não ter alguém.” Entretanto, ela garantiu que é um sentimento passageiro, porque, atualmente, sua prioridade é sua independência.
Essa busca por autonomia tem gerado uma transformação no estilo de vida e reflete a transição demográfica da capital, o que traz impactos diretos no mercado imobiliário do DF. Segundo dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do IBGE, as pessoas que moram sozinhas já representam 19,9% dos lares no DF, com um predomínio de adultos entre 30 e 59 anos (52,9%) e uma participação expressiva de idosos acima de 60 anos (32,2%). Ao mesmo tempo, o Distrito Federal se destaca no cenário nacional por registrar o maior percentual de imóveis alugados do país (34,5%) e a maior proporção de apartamentos (38,5%), impulsionado pelo recuo de 10,3 pontos percentuais na presença de casas na última década.
Para o presidente do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis (SECOVI/DF), Eduardo Pereira, o mercado local já se adaptou a esse novo perfil de consumidor, que combina transformações comportamentais e custos de vida. “Existe uma forte tendência da Geração Z de não querer casar ou morar junto, assim como existe a população mais velha que se separou ou ficou viúva e vive só”, disse.
Com isso, ele afirmou que as imobiliárias e o mercado em geral já perceberam essa mudança, e imóveis menores, como kitnets, flats e apartamentos de um quarto, passaram a ter uma alta na procura para venda e locação em regiões como Asa Sul, Asa Norte, Sudoeste, Noroeste e Águas Claras.
Segundo ele, a decisão por morar só nesses formatos responde tanto ao comportamento quanto ao bolso: “Tanto a tendência social em continuar solteiro quanto os valores altos do metro quadrado no DF influenciam na decisão de morar sozinho em apartamentos menores e mais acessíveis”. Ele aponta que, dentro dessa transformação social e de mercado, existe um nicho em ascensão: o de pessoas que moram sozinhas e têm pets.