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Morre Jean-Louis Comolli, crítico de cinema e editor da Cahiers du Cinéma

A informação foi divulgada pelo portal ‘Les Inrockuptibles’, que não especificou a causa da morte; Comolli tinha 80 anos

Por FolhaPress 20/05/2022 9h32
A informação foi divulgada pelo portal ‘Les Inrockuptibles’, que não especificou a causa da morte; Comolli tinha 80 anos Foto/Reprodução

Morreu o francês Jean-Louis Comolli, teórico e crítico de cinema e jazz, que marcou a revista Cahiers du Cinéma como editor-chefe de sua fase mais politizada, entre 1966 a 1971. A informação foi publicada pelo portal ‘Les Inrockuptibles’, que não especificou a causa da morte, citando apenas que ele tinha uma doença de longa data. Comolli tinha 80 anos.

Com forte atuação na imprensa francesa nos anos 1960, escrevia para a mensal Jazz Magazine, e é autor de ensaios fundamentais sobre o free jazz.

Com seus escritos, ele influenciou a discussão crítica sobre o teoria do dispositivo cinematográfico e, numa chave marxista-estruturalista, buscou pensar o lugar do espectador e o cinema como instrumento de uma ideologia do capitalismo.

“Do cinema se espera transformação, se supõe que o espectador percorra todo o filme para sair modificado no final, é o sujeito da experiência”, ele resumiu a este jornal, em entrevista de 2001. “Num reality show, o sujeito da experiência são as pessoas que estão sendo filmadas. É uma inversão a partir de um artifício construído com os mesmos tópicos do cinema.”

Ao lado do amigo argelino Jean Narboni, que já trabalhava na Cahiers quando era editada pelo cineasta Jacques Rivette, Comolli levou a revista para uma guinada à esquerda após o Maio de 1968.

Primeiro associada ao Partido Comunista, a publicação assumiu posição francamente maoísta a partir de 1971. Em 1973, esse radicalismo chegaria ao fim, passando por uma fase decadente e menos brilhante, até que Serge Daney e Serge Toubiana tomassem novamente as rédeas da Cahiers. Comolli seguiu trabalhando na revista até 1978.

“Considerando que a lógica do capitalismo neoliberal visa, desde há muito tempo, diminuir a importância da dimensão crítica no espaço público, que é também o espaço de mercantilização, os filmes difundidos pelo mercado escolhem a publicidade contra a crítica”, disse Comolli, em entrevista a este jornal em 2016. “Colocamos então a crítica de lado tanto quanto possível; ela perde espaço na mídia impressa, mas ganha na internet. É, portanto, de transformar a crítica em publicidade quando ela é favorável e de a sufocar quando é negativa.”

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Assinando a direção de mais de 40 filmes entre 1968 e 2019, a maioria curtas e documentários, fez trabalhos como “La Cecilia”, de 1975, uma ficção sobre uma trupe de anarquistas italianos que emigram para o Brasil. Depois fez “L’Ombre Rouge”, em 1981, outro filme histórico e político anti-stalinista, que se passa durante a Guerra Civil Espanhola.

Comolli veio para o Brasil em 2016, onde deu uma masterclass, comentando seu filme “Cinema Documental, Fragmentos de uma História”, de 2014. Na ocasião, comentou também o papel do cinema no mundo emergente das telas e das imagens produzidas pelos smartphones e que circulam nas redes sociais.

“Hoje as máquinas de gravar imagens do mundo estão em todas as mãos, ou quase. Assim encontramos a lógica fundadora dos Lumière, dar o mundo a ver por meio de uma tela. Há um cinema de máquinas pequenas que não é apenas um cinema como aparelho de visão, um cinema para ver, mas um cinema para gravar o que é visto, e então o poder rever. Essa é a definição do cinema, rever, porque na primeira vez não vemos, ou não vemos bem. Para ver o mundo é preciso o enquadrar e repetir no quadro”, disse.

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