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Folhetim "Outro Lugar na Solidão"

Folhetim – Outro lugar na Solidão. Capítulo 22 – Aqui jaz…

Folhetim – Outro lugar na Solidão Folhetim – Outro lugar na Solidão

Por Marcos Linhares, Adriana Kortland e Marcelo Capucci
Especial para o Jornal de Brasília

Jamil entrou no SS com dificuldade. Suas mãos escorregavam no volante de poliuretano. Ele não via o sangue que escorria em seu rosto. Atordoado, acelerou, cantando pneus, para fora do estacionamento privativo do Felina’s. Dirigia e falava para si mesmo com voz desequilibrada:

– Foi tudo muito rápido. Cadê os seguranças? Cadê a Crystal? Ai, minha cabeça!

Bêbado e com a visão do lado direito totalmente turva, pegou o celular e gravou um áudio raivoso e desconexo para Layla:

– Você não acredita no que vejo. Aliás, você nunca acreditou nas minhas visões. Você acabou com minha vida. Há anos vago por lugares fétidos por sua causa. Toda noite, sonho com a Chiara morta. Foi culpa sua. Eu nunca deveria ter obedecido você e perseguido a pobre coitada. E o que ganhei com isso? Nada! Você nem sequer agradeceu e ainda desqualificou meu carro. Já esqueceu as vezes que transamos, traindo aquele velho gagá, nesses bancos de couro? Eu nunca mais vou matar pra te satisfazer. Eu abri mão da minha vida como pai pra atender seus caprichos. Espero que um dia meu filho Giaco saiba exatamente a peçonhenta que você é.

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Delirando, não notou que estava beirando os 160km/h ao fechar a tela do celular. Sentiu um gosto amargo na garganta, abriu a janela e cuspiu. Entrou na curva do lago muito rápido. O SS derrapou e bateu lateral e violentamente contra uma torre de transmissão de energia elétrica. Como a janela estava aberta, não houve cortes produzidos por estilhaços de vidro. O celular, intacto, caiu da mão de Jamil e repousou no assoalho do passageiro. Agora, o cowboy e principal leão de chácara da cidade tinha a face esquerda do crânio fundida ao aço gelado da estrutura metálica.

Xavier desistiu da investigação. A confusão no Felina’s já havia sido o bastante. Entrou no carro, assistiu ao vídeo que enviara para JVC. Olhou o relógio com pulseira de aço cromado, anotou a hora da gravação. Olhou a foto que tirou das marcas de pneus no estacionamento dos fundos da boate, sintonizou a frequência da PM no rádio amador e voltou para a cidade.

Dirigia tranquilo, ouvindo as notificações de ocorrências, quando viu quatro luzes redondas e vermelhas que falhavam. Parou no acostamento e caminhou alguns metros até alcançar o carro que estava fora da estrada. O motor V6 ainda funcionava. Ele deu a volta para o lado do motorista e viu que o cara magrelo, que havia sido arrastado pelos seguranças do Felina’s há pouco tempo, agora estava com a face esmagada à torre de transmissão.

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Xavier checou o pulso do homem e notou que não havia sinais vitais. Se afastou e passou novamente os olhos pela lataria preta. Retirou um pedaço de lâmina cromada do para-choque que estava avariado, colocou-a em um saco plástico. Voltou para seu carro e acionou o rádio amador:

– QAP. Na escuta?

– Na escuta. Prossiga. Localização identificada.

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– Acidente grave, curva do lago, necessito suporte de ambulância para uma vítima e equipe de energia elétrica no local.
– Ok!

Horas depois, quando o corpo de Jamil era retirado das ferragens do Opala, o delegado JVC colocou luvas de látex para pegar o celular que estava no assoalho do passageiro do SS. Estava destravado. Ele chamou Xavier e os dois ouviram juntos a última mensagem de voz enviada pelo, agora, cadáver:

Ao final do áudio, Xavier entregou o envelope plástico com parte do SS ao delegado. JVC sorriu e disse:

– Gosto dos seus métodos.

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O delegado chamou o escrivão e pediu que fosse solicitada uma ordem de prisão preventiva contra Dona Layla.

No dia seguinte, Xavier e JVC viam as fotos da cena do acidente e algo parecia estranho. O delegado disse:

– O motorista morreu com a face esquerda da cabeça esmagada na torre de aço, do lado do condutor, certo?! Mas como ele conseguiu aquele machucado na face direita se não havia objetos no interior do veículo capazes de gerar tal impacto?

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Xavier coçou a cabeça e disse:

– Ontem, quando mandei aquele vídeo, não imaginava que tantas coisas aconteceriam depois, inclusive a morte do Jamil. Mas, algumas situações me deixaram curioso sobre aquele lugar, aqueles seguranças e a dançarina.

– O Jamil chegou a sacar a arma pra você, Xavier?

– Não, estava ocupado com os seguranças. E algo me diz que ele não ficou nada satisfeito ao ser impedido de falar com a tal Crystal. Acho que terei de voltar lá mais vezes.
JVC, olhando para o celular, disse:

– Vamos observar todas as possibilidades, Xavier. Esse ferimento na fronte direita do Jamil pode explicar muito mais sobre essa batida. Mas, por enquanto, vamos à casa do prefeito. Já temos a preventiva para a primeira dama.

Já beirava as 4h da tarde, e Dona Layla, sozinha, via o caixão de Jamil descer a sepultura. Ela depositou flores e chorou atrás dos óculos escuros. A única espectadora daquele velório trazia lembranças de amor e ódio. Jamil se foi.

O motorista manobrou na guarita da mansão e, antes de descer do carro, Dona Layla ouviu de um Ricardo Xavier, orgulhoso por estar dando voz de prisão a uma figura quase intocável da burguesia da cidade:

– Layla Farah Brecchia, a senhora está presa pela morte de Chiara Vicenza.

CONTINUA NA QUINTA-FEIRA






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