Eu estava aqui no Cosme Velho, tomando meu suco de pera e fazendo uma chamada de vídeo com o pessoal dos Estados Unidos, quando a notícia apareceu na tela. Quase derrubei o copo! Três brasileiros conquistaram cadeiras nos parlamentos estaduais americanos nas eleições desta terça-feira, 3 de novembro. Priscila Sousa, Rita Mendes e Felipe Sousa-Lazaballet. Dois mineiros? Não, minhas caras, duas mineiras e um fluminense! E todos eleitos pelo Partido Democrata. Fiquei olhando para aquela tela pensando no tamanho dessa história. O Brasil, que já exportou tanta gente em busca de oportunidades, agora também exporta políticos eleitos pelo voto americano.
E antes que alguém imagine os três desembarcando no Congresso, em Washington, vou explicar. Eles foram eleitos deputados estaduais, cargos que participam diretamente das decisões sobre leis, orçamento, educação, impostos e políticas públicas de seus estados. É poder de verdade, com consequências para empresas, trabalhadores, famílias e investidores. Massachusetts e Flórida são dois mercados importantes da economia americana, com características bastante diferentes. E agora têm brasileiros participando de suas decisões legislativas.
A história que mais me chamou atenção foi a de Felipe Sousa-Lazaballet, de 40 anos, nascido em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Ele chegou aos Estados Unidos aos 14 anos, viveu aproximadamente 15 anos sem documentação migratória regular e acaba de se tornar o primeiro brasileiro eleito para o Legislativo estadual da Flórida. Conquistou cerca de 63% dos votos na disputa pelo Distrito 42, na região de Orlando. Eu precisei conferir esse número. Um brasileiro que conheceu de perto as dificuldades da imigração agora vai participar da elaboração das leis de um dos estados mais importantes do país.
Felipe construiu sua trajetória na defesa dos direitos dos imigrantes e das comunidades LGBTQIA+. Participou de mobilizações pela regularização de jovens que chegaram aos Estados Unidos ainda crianças e foi beneficiário do DACA, programa criado em 2012, durante o governo de Barack Obama. Mais tarde, obteve a cidadania americana. Durante a campanha, defendeu oportunidades econômicas, moradia acessível, educação e acesso à saúde. Agora vem a parte que eu adoro observar: transformar discurso eleitoral em legislação. Porque promessa de campanha, minhas queridas, é igual projeção de faturamento de startup. O papel aceita tudo. O resultado precisa aparecer.
Em Massachusetts, as mineiras também mostraram força. Priscila Sousa, nascida em Ipatinga, foi reeleita para representar o 6º Distrito de Middlesex, na região de Framingham. Ela chegou aos Estados Unidos aos sete anos e construiu uma carreira política ligada à comunidade brasileira. Rita Mendes, natural de Conselheiro Pena, também renovou seu mandato, desta vez pelo 11º Distrito de Plymouth, que inclui Brockton. Advogada, Rita iniciou sua trajetória política no Conselho Municipal de Brockton, em 2019, antes de chegar ao Legislativo estadual em 2023. São duas mulheres que já conhecem os corredores do poder e receberam dos eleitores a oportunidade de continuar trabalhando.
E tem um detalhe político que merece atenção. Os três pertencem ao Partido Democrata, adversário do Partido Republicano de Donald Trump. As vitórias aconteceram nas eleições de meio de mandato, as famosas midterms, realizadas em 3 de novembro. São disputas que renovam a representação política americana e ajudam a definir o equilíbrio de forças nos dois anos seguintes. No caso desses brasileiros, o resultado também revela como trajetórias de imigração podem se transformar em carreiras políticas consolidadas.
Agora vamos falar de negócios, porque é aqui que meu radar fica especialmente atento. A região de Orlando possui uma comunidade brasileira expressiva. Segundo estimativas do Itamaraty referentes a 2025, aproximadamente 220 mil brasileiros vivem na área atendida pelo consulado brasileiro na cidade. Estamos falando de consumidores, empresários, profissionais liberais e famílias que movimentam setores como comércio, serviços, turismo e mercado imobiliário. A eleição de Felipe não significa automaticamente vantagens econômicas para essa comunidade, mas cria uma nova possibilidade de interlocução institucional. E quem trabalha com negócios sabe o valor de ter suas demandas ouvidas por quem participa das decisões.
Minha aposta é que os próximos meses serão mais importantes do que a comemoração eleitoral. Quero acompanhar quais comissões esses parlamentares vão integrar, como votarão em propostas relacionadas à imigração, qual será sua atuação em questões econômicas e de que maneira responderão às necessidades de seus distritos. A política americana tem regras próprias, e deputados estaduais não podem resolver sozinhos questões de competência federal, como a legislação migratória nacional. Mas podem influenciar políticas estaduais que afetam diretamente o cotidiano de milhares de pessoas.

Terminei minha chamada de vídeo, olhei para o suco de pera e fiquei pensando na dimensão dessa notícia. Um brasileiro de Duque de Caxias fazendo história na Flórida. Duas mineiras renovando seus mandatos em Massachusetts. Três trajetórias que atravessaram fronteiras e chegaram às urnas americanas. Eu considero uma conquista extraordinária de representação política. Agora quero acompanhar a entrega. Porque ganhar uma eleição é conquistar uma cadeira à mesa. O verdadeiro teste começa quando chega a conta.