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Kátia Flávia
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TJRJ premia estudantes e aposta na educação para combater a violência

Programa Rio Lilás já alcançou mais de 11 mil alunos com materiais educativos, premiou 15 estudantes e ganhou exposição fotográfica no Rio de Janeiro.

Kátia Flávia

04/11/2026 11h00

Alunos das escolas participantes do programa, educadores, professores, servidores atuantes na iniciativa e magistrados se uniram em cerimônia que emocionou os presentes no Plenário Desembargador Estênio Cantarino Cardozo

Alunos das escolas participantes do programa, educadores, professores, servidores atuantes na iniciativa e magistrados se uniram em cerimônia que emocionou os presentes no Plenário Desembargador Estênio Cantarino Cardozo

Eu estava olhando os números do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro quando um deles me fez interromper o café: mais de 11 mil estudantes alcançados pelos materiais do Rio Lilás. E pensar que, enquanto tanta gente gasta fortunas tentando consertar problemas depois que eles explodem, o Judiciário resolveu investir em uma estratégia bastante conhecida no mundo dos negócios: prevenção. A diferença é que, desta vez, o retorno esperado aparece no comportamento de crianças e adolescentes.

Na quinta-feira, 29 de outubro, o TJRJ reuniu estudantes, professores e magistrados no Fórum Central para entregar o Selo Carolina Maria de Jesus a 15 vencedoras de um concurso de redação. Cada uma recebeu também um tablet. A iniciativa integra o Rio Lilás, programa desenvolvido pela Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Coem), em parceria com o Núcleo de Promoção de Políticas Especiais de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar (Nupevid).

E aqui está o detalhe que me interessa: o Judiciário está entrando na escola antes que a violência chegue aos tribunais. Magistrados e integrantes do sistema de Justiça participam de rodas de conversa sobre respeito, igualdade e direitos das mulheres. Desde sua criação, foram realizados 30 encontros, com a participação direta de 2.189 crianças e adolescentes. O alcance indireto estimado chega a 20 mil pessoas. Para quem gosta de indicadores, são números relevantes de cobertura, embora ainda não permitam medir o impacto do programa na redução da violência.

A desembargadora Adriana Ramos de Mello, coordenadora da Coem, resumiu o propósito da iniciativa ao defender que meninas e meninos compreendam a importância de suas vozes e o poder transformador da educação. Já o presidente do TJRJ, desembargador Ricardo Couto de Castro, destacou a função preventiva do Judiciário. Traduzindo para a minha linguagem de negócios: a proposta é enfrentar o problema na origem, antes que seus custos humanos e institucionais se multipliquem.

Mas quem roubou a cena foram os estudantes. Luna Thadeu Barbosa, de 11 anos, da Escola Municipal Maria das Dores Negrão, em Oswaldo Cruz, recebeu o prêmio de surpresa. Davi Lucas Amaral de Lemos, de 14 anos, estudante de Belford Roxo, apresentou o poema Semente Lilás. E cinco alunos da Escola Municipal George Sumner desenvolveram o aplicativo Conecta Lilás, criado para informar mulheres sobre o programa e incentivar a busca por ajuda. Atenção ao detalhe: os próprios estudantes explicaram que a ferramenta tem caráter informativo e não funciona como canal de denúncias.

A cerimônia também marcou a inauguração da exposição fotográfica Rio Lilás nas Escolas, com registros das atividades em unidades municipais do Rio de Janeiro, Belford Roxo, Barra do Piraí e Rio das Flores. Depois da estreia no Fórum Central, a mostra ficará no hall da Lâmina III entre 27 de novembro de 2026 e 29 de janeiro de 2027. Em seguida, seguirá para o Museu da Justiça de Niterói, de 16 de fevereiro a 31 de março de 2027. Uma maneira de transformar o trabalho realizado nas salas de aula em memória institucional acessível ao público.

O programa funciona em três etapas: preparação com professores e diretores, rodas de conversa com representantes da Justiça e produção de textos e desenhos pelos alunos. É uma estrutura que permite adaptar as discussões à realidade de cada escola e reconhecer o aprendizado dos participantes. Para uma iniciativa pública, essa organização importa tanto quanto a solenidade de premiação.

Saí dessa leitura pensando numa ironia do nosso tempo. Empresas discutem inteligência artificial, automação e eficiência operacional, enquanto uma das transformações sociais mais necessárias continua dependendo de algo extraordinariamente simples: ensinar uma criança a reconhecer o desrespeito antes que ele se transforme em violência. O TJRJ apresentou seus números e premiou seus alunos. Agora, o indicador que realmente importa será acompanhar o que esse aprendizado consegue mudar fora da sala de aula.

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