Eu estava olhando os números do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro quando um deles me fez interromper o café: mais de 11 mil estudantes alcançados pelos materiais do Rio Lilás. E pensar que, enquanto tanta gente gasta fortunas tentando consertar problemas depois que eles explodem, o Judiciário resolveu investir em uma estratégia bastante conhecida no mundo dos negócios: prevenção. A diferença é que, desta vez, o retorno esperado aparece no comportamento de crianças e adolescentes.
Na quinta-feira, 29 de outubro, o TJRJ reuniu estudantes, professores e magistrados no Fórum Central para entregar o Selo Carolina Maria de Jesus a 15 vencedoras de um concurso de redação. Cada uma recebeu também um tablet. A iniciativa integra o Rio Lilás, programa desenvolvido pela Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Coem), em parceria com o Núcleo de Promoção de Políticas Especiais de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar (Nupevid).

E aqui está o detalhe que me interessa: o Judiciário está entrando na escola antes que a violência chegue aos tribunais. Magistrados e integrantes do sistema de Justiça participam de rodas de conversa sobre respeito, igualdade e direitos das mulheres. Desde sua criação, foram realizados 30 encontros, com a participação direta de 2.189 crianças e adolescentes. O alcance indireto estimado chega a 20 mil pessoas. Para quem gosta de indicadores, são números relevantes de cobertura, embora ainda não permitam medir o impacto do programa na redução da violência.
A desembargadora Adriana Ramos de Mello, coordenadora da Coem, resumiu o propósito da iniciativa ao defender que meninas e meninos compreendam a importância de suas vozes e o poder transformador da educação. Já o presidente do TJRJ, desembargador Ricardo Couto de Castro, destacou a função preventiva do Judiciário. Traduzindo para a minha linguagem de negócios: a proposta é enfrentar o problema na origem, antes que seus custos humanos e institucionais se multipliquem.
Mas quem roubou a cena foram os estudantes. Luna Thadeu Barbosa, de 11 anos, da Escola Municipal Maria das Dores Negrão, em Oswaldo Cruz, recebeu o prêmio de surpresa. Davi Lucas Amaral de Lemos, de 14 anos, estudante de Belford Roxo, apresentou o poema Semente Lilás. E cinco alunos da Escola Municipal George Sumner desenvolveram o aplicativo Conecta Lilás, criado para informar mulheres sobre o programa e incentivar a busca por ajuda. Atenção ao detalhe: os próprios estudantes explicaram que a ferramenta tem caráter informativo e não funciona como canal de denúncias.
A cerimônia também marcou a inauguração da exposição fotográfica Rio Lilás nas Escolas, com registros das atividades em unidades municipais do Rio de Janeiro, Belford Roxo, Barra do Piraí e Rio das Flores. Depois da estreia no Fórum Central, a mostra ficará no hall da Lâmina III entre 27 de novembro de 2026 e 29 de janeiro de 2027. Em seguida, seguirá para o Museu da Justiça de Niterói, de 16 de fevereiro a 31 de março de 2027. Uma maneira de transformar o trabalho realizado nas salas de aula em memória institucional acessível ao público.
O programa funciona em três etapas: preparação com professores e diretores, rodas de conversa com representantes da Justiça e produção de textos e desenhos pelos alunos. É uma estrutura que permite adaptar as discussões à realidade de cada escola e reconhecer o aprendizado dos participantes. Para uma iniciativa pública, essa organização importa tanto quanto a solenidade de premiação.
Saí dessa leitura pensando numa ironia do nosso tempo. Empresas discutem inteligência artificial, automação e eficiência operacional, enquanto uma das transformações sociais mais necessárias continua dependendo de algo extraordinariamente simples: ensinar uma criança a reconhecer o desrespeito antes que ele se transforme em violência. O TJRJ apresentou seus números e premiou seus alunos. Agora, o indicador que realmente importa será acompanhar o que esse aprendizado consegue mudar fora da sala de aula.