Felca tentou explicar as marcações “chorar aqui” e “levantar a foto e desabar no choro” que apareceram no roteiro de um vídeo sobre fobia social. Após as críticas, o influenciador afirmou que as anotações eram técnicas, feitas para orientar a gravação e preservar a continuidade do material.
Segundo ele, uma parte do vídeo foi filmada enquanto já chorava e a gravação foi retomada dois dias depois. A indicação serviria para que ele tentasse retomar a emoção no ponto em que havia parado. “Não sou Al Pacino”, brincou ao admitir que não conseguiu chorar sob comando.
Eu estava na Livraria da Travessa, com um livro aberto nas mãos, quando cheguei nessa explicação. E vou ser sincera: entendi a lógica da continuidade, mas “chorar aqui” é uma frase que, fora do contexto, cai na internet como uma bomba de glitter. Espalha para todo lado e não sai de ninguém.

A outra anotação que levantou sobrancelhas dizia “levantar a foto e desabar no choro”. Felca explicou que se tratava de uma orientação para a thumbnail, aquela imagem de capa que aparece antes de o público clicar no vídeo. Ou seja: o choro não seria uma atuação para o conteúdo, mas uma ideia visual para chamar atenção.
Eu fechei o livro devagar porque essa é a parte que me pega. Quem produz vídeo sabe que existe roteiro, corte, miniatura, luz e estratégia. Mas, quando a pauta é saúde mental, dor pessoal e fobia social, qualquer instrução sobre “desabar” transforma o público em detetive de emoção. Era inevitável que desse ruim.
Felca negou que tivesse inventado o sofrimento e respondeu: “Quem dera fosse falso, o que eu mais queria na minha vida era que fosse tudo falso”. Ele afirmou que toma medicação diariamente para conseguir sair de casa e relatou dificuldades ligadas à fobia social desde a adolescência.

E aqui eu não vou brincar com doença, porque fobia social não é enfeite de roteiro e muito menos assunto para diagnóstico de comentário. O que eu questiono é a apresentação. Se você publica o bastidor de um depoimento íntimo com marcação de choro, precisa saber que a explicação posterior vai ser cobrada em lupa.
O vídeo de Felca aborda agressões, exclusão e os sintomas que ele diz enfrentar há anos. A repercussão começou quando ele mostrou o roteiro nas redes e internautas encontraram as marcações que pareciam programar emoções. Depois, o conteúdo foi apagado, mas os prints já estavam circulando.
Eu deixei o livro separado no caixa e continuei com a sensação de que a explicação resolve uma parte, mas não apaga o desconforto. Felca pode estar falando de uma dor real, e isso merece respeito. Agora, usar frases como “chorar aqui” e “desabar no choro” num roteiro que se vende como o retrato mais íntimo da sua vida? Te convenceu?