Eu estava lendo o relatório sobre o acidente que matou Rick Sollo quando um detalhe me fez voltar algumas linhas. O helicóptero que transportava o cantor e outras quatro pessoas já apresentava problemas mecânicos, e um profissional havia recomendado uma nova inspeção. Ela não aconteceu antes da tragédia. Gente, como é que uma informação dessas não vira o centro da notícia?
Segundo informações divulgadas pelo Portal LeoDias, o relatório preliminar do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) aponta falhas recorrentes nos geradores da aeronave. Em abril, um dos componentes chegou a ser substituído. Em maio, houve novas intervenções. Mesmo assim, os defeitos continuaram aparecendo, alternadamente, nos dois geradores. Um mecânico recomendou que o helicóptero retornasse à organização de manutenção para uma avaliação mais aprofundada. Isso não ocorreu até 21 de setembro, quando a aeronave caiu em uma região montanhosa de Urubici, Santa Catarina.

E a história fica ainda mais delicada. Em 30 de março, meses antes do acidente fatal, o mesmo helicóptero precisou realizar um pouso de emergência em Ibiaçá, no Rio Grande do Sul, depois de apresentar uma vibração considerada anormal. As manutenções posteriores não identificaram irregularidades na vibração do rotor principal. É um antecedente que merece atenção, embora não exista conclusão oficial ligando aquele episódio à queda.
Agora vem outro detalhe que me chamou a atenção: a caixa-preta não guardava as últimas conversas da cabine. O gravador de voz, instalado em 2002 e com capacidade para registrar até 30 minutos, continha áudios de um procedimento de manutenção realizado em data não identificada. Ou seja, os investigadores não conseguiram recuperar as conversas do voo que terminou na morte de cinco pessoas.
O relatório também descreve chuva, nuvens baixas e visibilidade reduzida na região do acidente. A previsão meteorológica alertava inclusive para montanhas encobertas na Serra Geral. São elementos importantes para a investigação, mas nenhum deles, isoladamente, permite afirmar o que provocou a queda.
Além de Rick Sollo, que integrou dupla sertaneja com Renner, morreram o empresário e influenciador Bruno Avelar, o videomaker Paulo Soares, o piloto Antônio Roberto Nóbrega de Araújo e o copiloto Leopoldo Barros Teixeira.
Eu não vou transformar um relatório preliminar em sentença. O próprio Cenipa informa que nenhuma hipótese foi descartada e que a investigação continua. Mas existe uma pergunta legítima diante dos registros divulgados: por que a inspeção recomendada depois de tantas falhas não foi realizada antes daquele voo?

A investigação ainda precisa responder. E cinco mortes exigem respostas técnicas, não conclusões apressadas.