Uma repórter equatoriana foi atropelada ao vivo enquanto cobria as comemorações pela vitória do Equador sobre a Alemanha na Copa do Mundo. Kerlly Loor, da emissora Vito TVO, entrevistava um torcedor em uma rua tomada por pessoas celebrando a classificação da seleção equatoriana quando foi atingida por um carro pelas costas.
Eu já tinha descido as escadas do Airbnb em Petrópolis e estava no portão, esperando uma das amigas decidir se levava cachecol ou amor-próprio para a Bauernfest, quando o vídeo apareceu no grupo de jornalistas. Parei com a chave na mão. Porque cobertura ao vivo já entrega microfone falhando, torcedor invadindo link e bêbado gritando atrás da câmera, mas carro entrando na repórter no meio da entrevista é um nível de caos que nem manual de telejornal consegue prever.

Nas imagens, Kerlly aparece conversando com um torcedor quando um veículo avança lentamente e a atinge por trás. A jornalista perde o equilíbrio, a transmissão é interrompida por alguns instantes e quem está perto corre para ajudá-la.
O próprio entrevistado segura a repórter no momento do impacto, evitando uma queda pior. Logo depois, ela consegue se levantar e recebe apoio de pessoas que acompanhavam a celebração na rua. Segundo a emissora Vito TVO, Kerlly sofreu apenas escoriações leves e não precisou ser hospitalizada. O motorista também parou após o impacto.
No portão do Airbnb, uma das minhas amigas viu o vídeo por cima do meu ombro e soltou: “Ela continuou?”. Continuou, minha filha. Porque repórter latino-americana, quando não está desviando de buzina, está segurando pauta no braço, no salto e na coragem. Mas que ninguém romantize, viu? Ao vivo não é videogame, e rua tomada por festa precisa de organização antes que a comemoração vire ocorrência.
O acidente aconteceu poucas horas depois da vitória do Equador por 2 a 1 sobre a Alemanha. O resultado garantiu a classificação dos equatorianos para o mata-mata da Copa do Mundo. Mesmo com a derrota, a Alemanha também avançou, já que terminou na liderança do Grupo E.
A partida começou com gol de Leroy Sané para os alemães logo aos dois minutos. Depois, Nilson Angulo empatou para o Equador, e Gonzalo Plata, atacante do Flamengo, marcou o gol da virada que consagrou a classificação.
A festa foi tanta que o presidente do Equador, Daniel Noboa, decretou feriado no país nesta sexta-feira (26) para celebrar a vaga na segunda fase.
“Obrigado aos jogadores e ao técnico que, apesar das críticas, dos insultos e dos maus momentos que passaram, conseguiram se recuperar e trazer esta imensa alegria para o país inteiro. Amanhã, feriado! Viva o Equador”, escreveu Noboa nas redes sociais.

A alegria do país é compreensível. O susto da repórter também. Copa do Mundo transforma rua em arquibancada, buzina em trilha sonora e qualquer esquina em estúdio improvisado. Só que a imagem de Kerlly sendo atingida ao vivo lembra uma coisa bem simples: festa boa precisa deixar jornalista trabalhar sem virar alvo móvel de carro desatento.
Segui para a calçada de Petrópolis com a cena martelando na cabeça e uma certeza: se a seleção equatoriana entrou no mata-mata, Kerlly também merece classificação automática para a categoria “sobreviveu ao link mais perigoso da Copa”.