Menu
Kátia Flávia
Kátia Flávia

Renata Mietto, atriz brasileira presa pelo ICE, é maltratada e esconde o rosto da mãe

Nesta sexta (16), a mãe contou que a atriz detida em Los Angeles quase não come e recusa vídeo para não ser vista. A Justiça já liberou a saída dos EUA.

Kátia Flávia

16/10/2026 12h00

Renata Alves Mietto, atriz brasileira detida pelo ICE nos Estados Unidos, aguarda os procedimentos para retornar ao Brasil.

Renata Alves Mietto, atriz brasileira detida pelo ICE nos Estados Unidos, aguarda os procedimentos para retornar ao Brasil.

Eu já estava sentada na poltrona, cinto afivelado, no avião que sai de Lisboa para o meu fim de semana em Madri com as amigas, quando o telefone tocou antes da porta fechar. Era uma amiga do Rio pedindo para eu ler uma história antes de ativar o modo avião. Li ali mesmo, com o cartão de embarque na mão, e confesso que olhei para ele com outra cara pelo resto do voo.

A atriz brasileira Renata Alves Mietto, que mora nos Estados Unidos há dez anos, está há quase dois meses num presídio na Califórnia. Ela foi detida pelo ICE, o serviço de imigração americano, no fim de agosto, dentro do aeroporto de Los Angeles. Nesta semana, a Justiça dos EUA aceitou o pedido da defesa de saída voluntária, que libera o estrangeiro com o compromisso de embarcar logo para o país de origem. Até agora, ninguém sabe a data.

Quem conta como ela está é a mãe, a corretora Márcia Alves dos Reis. Segundo ela, Renata foi maltratada na prisão, perdeu muito peso e se recusa a fazer chamada de vídeo justamente “para eu não ver como ela está”. A filha diz que a comida é intragável e que só come de vez em quando. Visitas são proibidas, então as duas se falam apenas por telefone, e a mãe não vê a filha desde o dia em que o ICE a levou.

A história de Renata nos EUA começou em 2016, quando ela chegou para cursar o ensino médio com visto de estudante, numa escola que mãe e filha encontraram numa feira de intercâmbio. Depois de formada, entrou numa universidade em Utah com o mesmo visto. O problema apareceu quando tentou transferir o curso para a Califórnia, onde queria seguir a carreira de atriz: foi avisada de uma irregularidade no visto, que tentava renovar. Antes de viajar, procurou advogados, que não viram risco. A mãe diz que a filha já tinha entrado e saído do país várias vezes e que a família acreditava que só pessoas com algum crime estavam sendo detidas. “Sempre seguimos as regras”, afirmou.

A crença caiu na pior hora possível. Renata foi presa no mês em que o ICE bateu recorde, com mais de 50 mil detidos só em agosto. Desde a volta de Donald Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, agentes do órgão já detiveram mais de 500 mil pessoas, cerca de 7.200 delas brasileiras, segundo dados do Departamento de Segurança Interna compilados pelo projeto Deportation Data, da Universidade da Califórnia em Berkeley. A jurista Gisele Ambrosio, que presta consultoria ao Consulado do Brasil em Los Angeles, confirma que as detenções em aeroportos cresceram e que os alvos variam. O conselho dela é direto: quem tem qualquer processo pendente com a imigração deve falar com um advogado antes de pegar um voo.

A mãe resume o desfecho como alívio misturado com tristeza. Renata vai sair da prisão, mas vai ter de largar a faculdade e recomeçar do zero no Brasil, quando o sonho da família inteira era vê-la formada. A porta do meu avião fechou e eu, que vivo reclamando de fila de raio X, passei a decolagem inteira pensando numa menina que entrou num aeroporto para viajar e de lá não saiu mais.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado