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Kátia Flávia
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Renan Santos esfrega derrota na cara dos Bolsonaro: muita dancinha, pouca humildade

Após a reeleição de Lula, líder do Missão acusa a família Bolsonaro de transformar a direita em um clube de arrogantes e diz que milhões de visualizações não são suficientes para ganhar uma eleição.

Kátia Flávia

26/10/2026 9h00

Renan Santos, líder do Missão, criticou a postura da família Bolsonaro após o resultado da eleição presidencial.

Renan Santos, líder do Missão, criticou a postura da família Bolsonaro após o resultado da eleição presidencial.

Meus amores, eu estava aqui na minha casa, no Cosme Velho, tomando meu café e tentando encontrar coragem para ir à academia, quando Renan Santos resolveu entregar uma análise da eleição presidencial que merece atenção. E olha que eu já achava esse homem um gatinho antes de ouvi-lo falar. Agora estou seriamente considerando marcar aquele café em São Paulo. Porque uma coisa é ser bonito. Outra, bem mais interessante, é ter coragem de dizer o que os próprios aliados políticos preferem fingir que não enxergam.

Renan não economizou nas palavras ao responsabilizar a família Bolsonaro e o bolsonarismo pela vitória de Lula, eleito presidente da República pela quarta vez. Na avaliação dele, o petista não venceu porque apresentou um governo extraordinário. Venceu porque seus adversários conseguiram transformar arrogância em estratégia eleitoral. E, convenhamos, minhas criaturas, é preciso um talento especial para transformar milhões de seguidores em uma coleção de derrotas.

“A vitória foi construída em cima da arrogância da família Bolsonaro”, disparou Renan, ao sustentar que a direita brasileira foi capturada por Jair Bolsonaro em 2018, quando o desgaste do PT, provocado pela Lava Jato e pela prisão de Lula, abriu caminho para sua eleição. Desde então, segundo ele, instalou-se uma espécie de pedágio ideológico: para ser considerado de direita, não bastava discordar do PT. Era preciso gostar dos Bolsonaro, defender os Bolsonaro e, preferencialmente, nunca contrariar um Bolsonaro.

E foi justamente essa lógica que Renan decidiu atacar. Para ele, o bolsonarismo construiu uma direita obcecada por números nas redes sociais, capaz de produzir milhões de curtidas, visualizações e votos, mas incapaz de transformar popularidade digital em um projeto consistente para o país. “Uma direita que fica dançando o tempo todo termina dançando eleição”, afirmou. Eu quase derrubei meu café. Porque a frase tem a crueldade de um diagnóstico que não precisa de anestesia.

O líder do Missão também acusou integrantes do movimento de tratarem qualquer divergência como traição. Segundo Renan, quem discorda de um bolsonarista acaba insultado, ridicularizado ou excluído. Na interpretação dele, essa postura afastou eleitores que historicamente rejeitavam o PT, mas que passaram a enxergar na família Bolsonaro um risco político ainda maior. Ele afirmou que esse comportamento foi percebido inclusive no Sul e no Sudeste, regiões em que a direita costuma encontrar parte importante de seu eleitorado.

Renan ainda criticou a estratégia adotada no primeiro turno, quando apoiadores bolsonaristas incentivaram o voto em candidatos do próprio grupo para diferentes cargos. Citou a eleição de Douglas Ruas para o governo do Rio de Janeiro e fez uma acusação grave sobre supostas ligações políticas com o crime organizado. Essa alegação, apresentada por Renan, não veio acompanhada de provas no material analisado e não pode ser tratada como fato comprovado.

E sobrou até para Pablo Marçal. Renan criticou sua participação na campanha e afirmou que os ataques políticos não conseguiram ampliar o eleitorado bolsonarista. Para ele, o movimento preferiu hostilizar adversários e possíveis aliados em vez de construir pontes com os brasileiros que poderiam decidir a eleição. Uma estratégia curiosa: primeiro se ofende o eleitor, depois se cobra seu voto. Nem minha manicure, que tem uma paciência franciscana, conseguiria administrar uma clientela desse jeito.

Mas Renan foi além da crítica à derrota. Ele advertiu que o bolsonarismo poderá continuar perdendo eleições caso não abandone a postura que considera arrogante, independentemente de apresentar Tarcísio de Freitas, Nikolas Ferreira ou outro integrante da família Bolsonaro como candidato. Na avaliação dele, o problema não está apenas no nome escolhido, mas na incapacidade de reconhecer erros, dialogar e respeitar quem pensa diferente.

Para sustentar seu argumento, Renan recorreu a Fernando Henrique Cardoso. Lembrou que o tucano derrotou Lula duas vezes no primeiro turno, em 1994 e 1998, sem precisar se apresentar como representante de uma direita ideologicamente fechada. Destacou também as reformas econômicas e a capacidade de oferecer respostas concretas aos problemas brasileiros. A comparação serviu para reforçar sua tese: derrotar o PT exige mais do que mobilização digital, ataques pessoais e fidelidade a uma família.

E aqui está o ponto que mais me chamou a atenção nessa história. Renan Santos não fez um discurso de celebração da vitória petista. Pelo contrário. Classificou o governo Lula como fraco e reconheceu que ele próprio não conquistou uma votação expressiva. Mas argumentou que a oposição precisa abandonar a ilusão de que popularidade nas redes sociais equivale automaticamente à capacidade de governar ou vencer uma disputa presidencial.

No fundo, o recado foi dirigido a uma direita que, segundo ele, aprendeu a conquistar algoritmos, mas desaprendeu a conquistar pessoas. Uma direita que mede força pelo tamanho do engajamento, transforma discordâncias em guerras particulares e depois se surpreende quando parte do eleitorado prefere votar no adversário.

Agora, meus amores, vou finalmente colocar minha roupa de academia, porque o dia ainda está começando e o Brasil não vai resolver suas crises enquanto eu estiver sentada no sofá do Cosme Velho. Mas deixo uma observação: Renan pode não ter conseguido os votos que desejava, porém conseguiu formular uma crítica que certamente incomodará muita gente do próprio campo político.

E quanto ao café em São Paulo, continuo interessada. Afinal, depois de tanta gente dançando nas redes sociais, encontrar um homem disposto a discutir política sem coreografia já me parece um acontecimento.

No fim, Renan resumiu a tragédia eleitoral do bolsonarismo em uma contradição deliciosa: uma família que exige fidelidade absoluta de seus seguidores, mas não consegue convencer todos os brasileiros a segui-la até a urna.

Em sua análise, Renan Santos citou Jair Bolsonaro, Nikolas Ferreira, Tarcísio de Freitas e Pablo Marçal.

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