Eu estava aqui no meu Cosme Velho, acompanhando a ressaca eleitoral, quando me deparei com uma daquelas notícias que fazem a gente olhar duas vezes para a tela. Gente, parece que a família Bolsonaro encontrou um novo personagem para explicar a derrota nas urnas. E o escolhido não é nenhum petista. É Nikolas Ferreira, uma das maiores estrelas da própria direita brasileira. Que situação!
Segundo o jornalista Valdo Cruz, da GloboNews, integrantes da campanha de Flávio Bolsonaro passaram a responsabilizar o deputado federal mineiro por parte do desempenho negativo do candidato em Minas Gerais e no Nordeste. A informação foi divulgada neste domingo (25). O detalhe delicioso dessa história política é que a campanha apostava justamente na popularidade de Nikolas para conquistar votos. Agora, o mesmo aliado que deveria ajudar a ganhar a eleição aparece na avaliação interna como um dos responsáveis pelo prejuízo.

E não fui eu que inventei essa fofoca, meus amores. Valdo Cruz contou que conversou com integrantes da campanha de Flávio. Segundo o comentarista, o grupo acreditava que conseguiria vencer em Minas Gerais, mesmo percebendo uma redução da vantagem eleitoral. A expectativa não se confirmou. No Nordeste, a avaliação teria sido ainda mais incômoda: os vídeos produzidos por Nikolas, inicialmente considerados uma boa estratégia, passaram a ser tratados como um erro.
A confusão começou com a publicação de O Nordeste que foi esquecido, vídeo divulgado pelo deputado na terça-feira (20). Na gravação, cinco moradores de Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, relatam dificuldades financeiras e problemas de acesso a serviços básicos. A proposta era criticar o governo Lula. Só que imagens dos bastidores mostraram integrantes da produção orientando enquadramentos e discutindo como retratar os entrevistados. Em determinado momento, uma voz comenta sobre uma mulher: “Ela faz uma cara de coitada, que chega a dar dó”. A divulgação dessas cenas provocou críticas à produção.
Para completar o roteiro, o vídeo ainda perdeu o áudio no Instagram após uma reivindicação de direitos autorais envolvendo a música Grão de Areia, de Rubel com Xande de Pilares. Nikolas classificou a medida como censura. Mas o problema político apontado por Valdo Cruz era outro: o material produzido para atacar Lula teria contribuído, na avaliação de integrantes da campanha de Flávio, para prejudicar o próprio candidato.
Agora, convenhamos, existe uma ironia quase cinematográfica nessa história. Nikolas Ferreira entrou na campanha como uma aposta eleitoral e terminou apontado por aliados como parte do problema. É importante dizer que essa é uma avaliação atribuída à equipe de Flávio, não uma comprovação de que o deputado tenha determinado o resultado das urnas.
E eu fico aqui pensando: na política brasileira, até a escolha do culpado rende disputa. Quando a vitória parecia possível, Nikolas era uma estrela. Depois da derrota, virou assunto de reunião. O curioso é que a popularidade do deputado não desapareceu de uma hora para outra. O que mudou, segundo o relato da GloboNews, foi a avaliação de quem contava com ela para vencer.

Na política, meus amores, o cabo eleitoral de ontem pode virar o bode expiatório de hoje. E sem precisar trocar de partido.