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Kátia Flávia
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Reality “As Patroas”: Viih Tube coloca funcionários para caçar moedas no lixo e no vaso sanitário

Influenciadora e Eliezer estrearam “As Patroas”, competição com empregados da casa disputando dinheiro, regalias e até uma moto, mas a primeira prova já nasceu com cheiro de humilhação gourmetizada

Kátia Flávia

01/07/2026 16h00

Viih Tube e Eliezer estrearam reality com funcionários da própria casa

Viih Tube e Eliezer estrearam reality com funcionários da própria casa

Viih Tube e Eliezer estrearam o reality “As Patroas”, uma competição com 11 funcionários da família, incluindo babás, motorista, cozinheira, lavadeira e governanta, disputando prêmios em dinheiro, benefícios no trabalho e uma motocicleta. A primeira prova chamou atenção porque colocou os empregados para procurar moedas escondidas pela mansão, inclusive dentro de vaso sanitário, lixeira de banheiro e lago artificial.

Eu já tinha saído da fase da tinta e estava naquele momento perigosíssimo do salão em que a gente finge calma enquanto espera descobrir se a raiz vai ficar rica ou radioativa, quando me mandaram o vídeo. Dei play com cuidado para não encostar o cabelo no encosto da cadeira e quase pedi para a moça do café trocar a xícara por um balde, porque tem reality que já estreia pedindo desinfetante, advogado trabalhista e uma benzedeira de reputação.

Primeira prova colocou empregados para procurar moedas em vaso sanitário, lixeira e lago artificial
Primeira prova colocou empregados para procurar moedas em vaso sanitário, lixeira e lago artificial

O programa foi apresentado por Viih Tube como “o reality, literalmente, da nossa casa”. Os episódios saem às terças e aos sábados no YouTube e nas redes sociais do casal. O campeão deve receber R$ 20 mil, além do valor acumulado nas provas, que pode chegar a R$ 30 mil. O terceiro colocado também ganhará uma motocicleta.

Até aí, minha filha, cada rico inventa a gincana que combina com a própria sala de estar. O problema começa quando a brincadeira vira vitrine de poder. A dinâmica das terças-feiras recebeu o nome de “desafio CLT”. O vencedor soma R$ 1 mil ao prêmio final, ganha 10 pontos e vira a “patroa da semana”, com direito a uma regalia escolhida pelo público. Entre as opções da estreia estavam massagem, jantar em restaurante ou entrar uma hora mais tarde no trabalho durante a semana.

A primeira prova consistiu em espalhar moedas coloridas pela casa e dar dez minutos para os participantes encontrarem o máximo possível. As peças foram colocadas em móveis, cômodos, no lago artificial, dentro de vasos sanitários e em lixeiras de banheiro.

Anderson, motorista da família, encontrou moedas no banheiro e reagiu na hora: “Misericórdia, dentro do vaso? Pelo amor de Deus”. Depois, ao revirar uma lixeira cheia de papéis para pegar mais peças, ainda comentou: “Não sei quem vai limpar depois”.

Pois é. A frase saiu pequena, mas carregou a tese inteira no colo. Quem procura moeda no lixo? Quem limpa depois? Quem ganha engajamento? Quem vira conteúdo? Quem chama de oportunidade aquilo que, se fosse numa empresa sem ring light, talvez recebesse outro nome?

Em outro momento, Viih Tube incentivou os participantes enquanto eles procuravam as moedas. “Dá a vida, dá a vida!”, gritou a influenciadora, enquanto funcionários entravam na água do lago artificial para tentar pegar as peças. A vencedora da prova foi Vilma, uma das babás, que garantiu R$ 1 mil, 10 pontos e a regalia que será escolhida pelo público.

Antes da prova principal, o casal ainda apresentou uma dinâmica extra. Uma funcionária sorteada precisava dizer a palavra “esdrúxulo” sem que os colegas percebessem. Se ninguém descobrisse, ela ganharia R$ 2 mil. Caso alguém identificasse a missão, o valor seria dividido entre os outros dez participantes.

Viih Tube afirmou nos stories que a ideia do reality partiu dela. “Por incrível que pareça, fui eu [que tive a ideia]. O Eli é quem grava mais as meninas [funcionárias] no mercado, zoando elas. Eu adoro essa coisa de websérie, episódios, criar provas, cenários. A ideia foi minha e o Eli amou, palpitou comigo”, disse.

A influenciadora também respondeu a quem questionou se as gravações atrapalhariam o trabalho dos funcionários. “Acho que eles [funcionários] vão se divertir tanto. Vai atrapalhar o trabalho? Vai. Mas nem tudo é trabalho”, afirmou. Em outra resposta, reforçou: “Claro que vai, gente, mas nem tudo na vida é trabalho. Elas também têm que aproveitar uma oportunidade dessa”.

Olha, eu adoro uma oportunidade. Mas oportunidade em que o patrão manda, filma, monetiza, escolhe a regra, controla o prêmio e ainda transforma funcionário em personagem precisa ser analisada com uma lupa do tamanho da mansão. Porque quando a pessoa depende do emprego, “participar” nunca é uma palavra tão simples quanto parece na legenda.

Segundo as regras apresentadas, todos os funcionários precisam participar das gravações. Quem faltar nos dias do reality deixa a disputa. Ao mesmo tempo, Viih explicou que não haverá eliminação por desempenho: vence quem acumular mais pontos ao longo dos episódios.

 Influenciadora afirmou que gravações podem atrapalhar o trabalho, mas disse que “nem tudo é trabalho”
Influenciadora afirmou que gravações podem atrapalhar o trabalho, mas disse que “nem tudo é trabalho”

Não estou dizendo que funcionário não pode brincar, ganhar prêmio ou aparecer em vídeo. O ponto é outro, bem mais incômodo: quando a diversão é organizada pelo patrão, filmada pelo patrão, publicada pelo patrão e vendida como entretenimento para o público, a linha entre gincana e humilhação fica fininha, fininha. E esconder moeda em vaso sanitário não ajuda exatamente a deixar essa linha elegante.

No fim, “As Patroas” tentou vender leveza, casa cheia e prêmio. Mas estreou com empregado procurando dinheiro em privada e lixeira. E, meus amores, quando o conteúdo precisa que alguém enfie a mão no lixo para render, talvez o problema não esteja só na prova. Está no roteiro inteiro.

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