Cheguei de Portugal, a mala ainda está aberta no meio da sala aqui no Cosme Velho, o fuso está me cobrando juros, e a primeira coisa que aparece quando ligo o celular é o nome Rafael Mascarenhas no topo das buscas do Brasil. Sentei no chão. Sério. Tem assunto que a gente cobre e tem assunto que a gente carrega, e esse eu carrego desde julho de 2010.
Vamos ao fato. Nesta quinta (22), João Velho, filho mais velho de Cissa Guimarães, levou à Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática do Rio um boletim de ocorrência e uma notícia de crime contra o dono de um perfil no Instagram. O motivo foi um comentário deixado num post dele, que eu transcrevo como veio, com erro e tudo: “Nas próxima eleição teremos o Rafael Bussamra, para atropelar a esquerda. Meu herói não usa capa, ele usa o volante de um carro”. O caso foi enquadrado como apologia de crime e ameaça. Os advogados Ricardo Brajterman e Maíra Fernandes pediram abertura de inquérito e querem que a Meta entregue telefone, endereço, IP e registros de acesso da conta. João resumiu numa frase só: “Isso não vai passar batido”.

A cobertura se embaralhou num detalhe. Uma parte da imprensa diz que o comentário caiu num post de apoio a Lula. O advogado diz que o post era para divulgar arte. O calendário, esse não muda: a mensagem apareceu na semana do segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, marcado para domingo. Alguém olhou para a eleição mais tensa da década e achou que a melhor contribuição seria transformar a morte de um menino de 18 anos em slogan.
Vamos lembrar quem é o tal herói. Madrugada de 20 de julho de 2010, Túnel Acústico, entre a Gávea e São Conrado, pista fechada para manutenção. Rafael andava de skate com dois amigos da banda. Dois carros entraram no trecho interditado em alta velocidade, e o Siena dirigido por Rafael Bussamra atingiu o filho da Cissa. Segundo as investigações, era racha, e o motorista deixou o local sem prestar socorro. O pai dele, Roberto Bussamra, foi condenado por corrupção ativa por ter pagado policiais militares para liberar o carro e o filho. Semanas depois, numa entrevista, o próprio Bussamra disse que “todo mundo está mentindo e só eu estou pagando”. Capa eu não sei, mas o papel de injustiçado ele vestiu cedinho.
E pagou quanto? A sentença de 2015 somava 7 anos de reclusão e 5 anos e 9 meses de detenção. Em 2016, o Tribunal de Justiça do Rio reduziu a pena para 3 anos e 6 meses por homicídio culposo e trocou a cadeia por serviço comunitário. O STJ derrubou essa troca em 2018, os recursos se esgotaram em 2023, e pai e filho só se entregaram em setembro daquele ano, treze anos depois do atropelamento. O pai passou nove meses preso e foi para o regime aberto com tornozeleira em junho de 2024. Na época, a Justiça informou que o filho também tinha pedido progressão. Fui atrás de uma atualização pública sobre a situação dele hoje e não encontrei. No papel, uma pena de três anos e meio iniciada em setembro de 2023 terminaria em março de 2027.
Agora o que pouca gente está explicando: a lei. O artigo 287 do Código Penal pune quem faz, publicamente, apologia de fato criminoso ou de autor de crime. Autor de crime, meu bem. Chamar de herói, num comentário aberto, um homem condenado por homicídio culposo é praticamente a definição do artigo. Só que a pena é miúda: de três a seis meses de detenção, ou multa. A ameaça rende de um a seis meses, ou multa, e só anda se a vítima representar, que foi exatamente o que João fez ao levar o caso à polícia. Com penas desse tamanho, o caminho natural é o Juizado Especial Criminal, onde cabe acordo. E aí vem a ironia que me arrepiou: em 2010, o motorista do outro carro do racha resolveu a parte dele numa transação penal, pagando dez salários mínimos à ABBR e ficando um ano sem carteira. O risco de a conta sair barata de novo existe.
Também não é a primeira vez. Em 2025, no Sem Censura, Cissa contou que passou a evitar comentários porque “de vez em quando, fazem uma coisa muito cruel comigo, pessoalmente, que é colocar o meu filho no meio”. A diferença é que agora o filho mais velho decidiu não engolir. E tem um detalhe que me pega pela garganta: o túnel onde Rafael morreu leva o nome dele há anos. O perfil exaltou o motorista numa cidade em que a placa no concreto homenageia a vítima.
O Rafael de quem estamos falando era guitarrista e backing vocal da The Good Fellas, participava do Geleia do Rock no Multishow, cursava Engenharia na PUC prestes a trocar para Arquitetura e tinha viagem marcada para estudar música na Europa. Naquela noite, antes do skate, a banda tinha ensaiado num apartamento da Gávea. Na missa de sétimo dia, o pai, Raul Mascarenhas, tocou no saxofone do filho a música que tinha composto para ele. É disso que se trata quando alguém escreve que o herói usa o volante.

Veredito da Kátia: divergência política faz parte do jogo, e domingo tem urna para isso. Usar o atropelamento de um garoto de 18 anos como piada eleitoral não é opinião, é covardia com wifi, e ainda escrita com “nas próxima eleição”, o que diz muito sobre o capricho do autor. Agora é com a Meta, com a polícia e com o Ministério Público. A mala eu desfaço depois.