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Kátia Flávia
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Rachel Sheherazade é expulsa de Uber após pedir BandNews FM e chama a PM

A jornalista Rachel Sheherazade publicou um vídeo denunciando um motorista de aplicativo que, segundo ela, cancelou a corrida e a deixou numa rua deserta em São Paulo depois que ela pediu para trocar a estação de rádio. O detalhe que me prendeu no vídeo inteiro é a velocidade com que uma discussão sobre FM virou boletim de ocorrência, ligação para o 190 e convocação de boicote nacional.

Kátia Flávia

31/07/2026 11h30

Rachel Sheherazade relatou ter sido retirada de uma corrida de aplicativo após pedir para ouvir a BandNews FM.

Rachel Sheherazade relatou ter sido retirada de uma corrida de aplicativo após pedir para ouvir a BandNews FM.

Eu estava parada no trânsito em Ibiza, aquele que não anda nem com escolta, quando o celular apitou com o vídeo. Abri achando que era mais uma nota de assessoria disfarçada de desabafo. Não era. Era Rachel Sheherazade, no meio da rua, câmera na mão, voz de quem já tinha decidido que aquilo ali não terminaria bem para ninguém.

A história, na versão dela, é a seguinte. Pegou um carro de aplicativo em casa, pagou adiantado, meia hora de corrida transcorrida em paz. Aí pediu ao motorista para trocar a música alta pela BandNews FM. Ele disse que não. Ela perguntou por quê. Ele respondeu que não gosta da BandNews. Ela argumentou que era a cliente e estava pagando. Ele avisou que cancelaria a corrida, parou numa rua que ela mesma descreve como erma e pediu que ela descesse. Ela se recusou. Disse que quem a pegou em casa a deixaria em casa. Ficou dentro do carro e ligou para a Polícia Militar.

Repito a parte que interessa. O estopim foi a estação de rádio. Duas pessoas adultas, um carro em movimento, uma cidade inteira lá fora, e o ponto de ruptura foi o dial. Ela conta no vídeo que queria ouvir Reinaldo Azevedo, a quem chama de amigo, e chega a dizer que depois contaria o caso para ele. Existe algo profundamente brasileiro em alguém acionar o 190 com um pé na calçada e a outra mão prometendo levar a queixa direto ao apresentador.

E aí vem a parte em que eu, que trabalho com isso, fico desconfortável. No vídeo ela mostra a placa do carro e diz o nome do motorista, pedindo que as pessoas não aceitem corrida com ele. Ele é um trabalhador anônimo, sem assessoria, sem canal de resposta e sem versão publicada até agora. Ela tem alcance, tribuna e um telefonema para o rei. Ele tem o app. A conta não fecha, e não é preciso concordar com o comportamento dele para enxergar isso.

O vídeo também tem uma frase que resume o gênero. Ela diz que nunca faz exigência nenhuma, que não escolhe ar-condicionado, não escolhe conversa, não escolhe nada, e emenda contando a exigência que fez. É o clássico da categoria. Ninguém se acha chato. Todo mundo é aquele passageiro tranquilo que só pediu uma coisinha. A coisinha é sempre a última que o outro estava disposto a ceder.

O que sobra é uma denúncia legítima misturada com uma escalada que ninguém pediu. Ela vai registrar boletim de ocorrência, já acionou a plataforma e prometeu divulgar o vídeo completo. A recomendação que ela dá às mulheres, gravar a corrida, compartilhar o trajeto e manter o 190 à mão, é boa e vale para qualquer motivo. Só acho que a gente merecia saber o resto. Eu quero ouvir o motorista. Quero saber o que a plataforma decidiu. E confesso que quero mesmo é descobrir qual era a música que estava tocando. Porque, se ele topou perder a corrida, o dinheiro e a nota para não desligar, aquilo lá era hino.

O vídeo publicado por Rachel Sheherazade reacendeu o debate sobre direitos de passageiros e motoristas em corridas por aplicativo.

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