O príncipe Harry deixou o conselho da African Parks, organização de conservação que admitiu violações de direitos humanos cometidas por alguns de seus guardas em áreas protegidas na África. A entidade abriu uma investigação após denúncias de estupro, agressões e tortura contra indígenas.
Eu já estava no carro, descendo o Cosme Velho para o pilates em Laranjeiras, quando li a notícia e guardei o celular. Essa não é uma daquelas saídas discretas de conselho que se explicam com “novos projetos”. Harry ficou dez anos ligado à ONG e sua despedida acontece com uma sombra pesadíssima sobre a instituição.

O duque entrou na African Parks em 2016, presidiu a entidade por seis anos e passou a integrar o conselho em 2023. A organização anunciou sua saída ao apresentar novos conselheiros e agradeceu o período de atuação dele.
Mas o pano de fundo é gravíssimo. Em maio de 2025, a African Parks reconheceu que abusos aconteceram em alguns casos, pediu desculpas às vítimas e admitiu falhas em seus sistemas de controle. A promessa foi de investigar os envolvidos e adotar medidas quando houvesse provas suficientes.
Eu parei o carro numa papelaria em Laranjeiras para comprar o caderno novo e fiquei um minuto sem descer. Porque não basta uma organização usar palavras bonitas como “conservação” e “proteção ambiental” se quem vive no território é tratado com violência. A causa não fica acima das pessoas.

Um porta-voz afirmou que Harry tem orgulho de sua década de trabalho na African Parks e segue apoiando a missão da organização. A saída, porém, não veio acompanhada de uma explicação pública detalhada sobre o escândalo ou sobre qual foi o papel dele nas medidas adotadas depois das denúncias.
E é aí que o caso fica incômodo. Quando uma instituição reconhece estupro, agressão e tortura sob sua estrutura, não há comunicado elegante que encerre a conversa. Harry pode ter deixado o conselho, mas a pergunta que sobra é quem sabia, quem falhou e por que as vítimas precisaram esperar tanto para serem ouvidas.