A vencedora do Porsche Macan de R$ 500 mil sorteado por Nego Di nunca existiu. Segundo a sentença que condenou o influenciador, ele criou a personagem “Silmara Noeli”, simulou telefonemas e publicou mensagens falsas para fazer seus seguidores acreditarem que o automóvel havia sido entregue.
Eu ainda estava no estúdio em Copacabana, cercada pelos vestidos apresentados pela figurinista, quando uma produtora leu o nome da suposta ganhadora. Pedi que repetisse. Silmara Noeli tem tanta cara de personagem improvisada que larguei o cabide e fui conferir se a Justiça realmente estava dizendo aquilo. Estava.

De acordo com o promotor Flávio Duarte, Nego Di usou o telefone de uma pessoa que trabalhava com ele para encenar a conversa com a falsa vencedora. O vídeo foi compartilhado nas redes sociais como se registrasse o contato oficial após o sorteio.
A investigação apontou que as rifas não possuíam datas específicas para serem encerradas. Nego Di teria controle sobre os números e poderia verificar previamente se o bilhete vencedor havia sido comprado por algum participante.
“Ele poderia perfeitamente ver um determinado sorteio cujo número não foi contemplado por ninguém, poderia adquirir os números ele mesmo até ele mesmo adquirir o número vencedor”, explicou o promotor.
Sem precisar entregar o Porsche Macan, o influenciador teria criado Silmara e encenado a ligação. “Ele simulou uma ligação para uma determinada pessoa que ele mesmo criou como se ela fosse a vencedora”, afirmou Flávio Duarte.
Pedi que suspendessem a escolha do vestido e improvisei uma pequena investigação no estúdio. Uma pessoa procurou o vídeo, outra conferiu o nome e a figurinista quis saber se havia fotografia da premiada. Nada. A grande estrela da rifa era uma mulher que só morava no telefone usado durante a encenação.
Nego Di foi condenado por estelionato, lavagem de dinheiro, uso de documento falso e promoção de loteria ilegal. A pena determinada foi de 14 anos e seis meses de prisão em regime fechado, além de um ano e 15 dias pela contravenção relacionada às rifas.
A esposa dele, Gabriela Vicente de Sousa, recebeu pena de oito anos e quatro meses em regime fechado por lavagem de dinheiro. Segundo a decisão, ela teria cedido contas e estruturas financeiras utilizadas na movimentação dos valores.
A sentença aponta que o esquema realizou pelo menos 34 sorteios entre novembro de 2022 e maio de 2024. Mais de R$ 2,5 milhões teriam circulado na atividade, que atingiu ao menos 9.683 pessoas e provocou prejuízo estimado em R$ 185,3 mil.
O dinheiro arrecadado teria passado por contas de Gabriela Vicente de Sousa, de uma empresa do casal e de terceiros. Para a Justiça, as transferências sucessivas e a mistura com valores de origem lícita dificultavam o rastreamento.
A condenação também levou em consideração o comprovante falso utilizado por Nego Di para anunciar uma suposta doação de R$ 1 milhão às vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul. Segundo o Ministério Público, ele transferiu apenas R$ 100 e adulterou o recibo antes de publicá-lo.
Na época, o influenciador declarou: “A gente fez essa escolha de coração. Decidi doar um milhão de reais pro Rio Grande do Sul”. Para a Justiça, a divulgação tinha o objetivo de aumentar o engajamento, atrair seguidores e gerar ganhos financeiros a partir de uma doação inexistente naquele valor.

Escolhi finalmente um dos vestidos, mas confesso que Silmara continuou rondando o estúdio. A mulher fictícia ganhou um Porsche Macan que não recebeu, conversou por um telefone controlado pelo próprio sorteador e ainda virou personagem central de uma sentença criminal. É a única premiada de rifa que saiu sem carro, sem rosto e sem certidão de nascimento.
A defesa de Nego Di foi procurada pela reportagem original, mas não havia se manifestado até a publicação. A condenação é de primeira instância e ainda pode ser contestada por meio de recurso.