Abri o celular e o nome de Nilton Travesso tinha disparado nas buscas. Abaixei o aparelho, peguei de novo, fui conferir. Pois é. O diretor morreu nesta sexta (6), aos 92 anos, em São Paulo, de infecção generalizada, segundo o SBT.
Agora vem a parte que me fez parar. Esse senhor começou em 1953, com 19 anos, depois de passar numa seleção para operador de câmera da Record, antes de a emissora entrar no ar. Setenta e três anos depois, Eliana, Angélica e Adriane Galisteu se despediram dele em público, e Galisteu escreveu que ele não precisava levantar a voz para ser gigante. Gente, quem dirigiu esse time todo sem levantar a voz tem currículo. Fui atrás de dez provas.
A Record do zero
Entrou na equipe que colocou a emissora no ar e virou parte da Equipe A, ao lado de Manoel Carlos. Ninguém no Brasil sabia direito fazer televisão, e ele estava atrás da câmera.
Jovem Guarda e festivais.
Dirigiu o Jovem Guarda e trabalhou nos festivais de música da Record, que mostraram ao país os grandes nomes da MPB. Muito do repertório que seu pai canta no churrasco passou por aquele palco.
O sofá da Hebe
Dirigiu Hebe Camargo nos anos 1960 e ajudou a firmar o formato de entrevista no sofá. Repara quantos programas ainda põem o famoso num estofado para arrancar confissão.
Fantástico e o primeiro clipe
Boni chamou Nilton em 1974 para criar o Fantástico com ele. No ano seguinte, ele gravou América do Sul com Ney Matogrosso no meio da floresta, o que é considerado o primeiro videoclipe da TV brasileira.
TV Mulher
Idealizou e dirigiu o matinal da Globo apresentado por Marília Gabriela nos anos 1980. Perto da estreia, pediu a música de abertura para Rita Lee, e ela respondeu cantarolando o refrão no telefone. Com uma agenda dessas, eu respeito.
Balão Mágico e Som Brasil
Fundou o núcleo de programação da Globo em São Paulo, comandou o Balão Mágico e ajudou a criar o Som Brasil. Uma geração aprendeu a cantar com a turma do balão, e a música de raiz ganhou espaço na Globo.
Pantanal
Na Manchete, a partir de 1987, ajudou a montar a área de novelas que levou ao ar Pantanal e A História de Ana Raio e Zé Trovão. Com essas novelas, a emissora chegou ao grupo das mais vistas, coisa que pouca gente apostava.
Bom Dia & Cia
Em 1993, criou o formato no SBT para Eliana e ainda reformulou o Show Maravilha, com o primeiro cenário em 360 graus da emissora. Eliana virou ali um dos maiores nomes da TV infantil e agora escreveu que guarda tudo o que aprendeu com ele.
Éramos Seis e Chiquititas.
Reabriu a área de novelas do SBT e estreou Éramos Seis em 1994, com Irene Ravache, exibida em dois horários. Sob a supervisão dele veio também a primeira Chiquititas, que fez uma geração inteira saber de cor as músicas do orfanato.
Charme, Mais Você e Saia Justa
Criou e dirigiu o Charme, com Galisteu, em 2004, e dirigiu também o Mais Você e o Saia Justa. Astrid Fontenelle contou que diziam que só a delicadeza dele daria conta de tanta mulher junta. Eu acredito.
Ele ainda abriu a própria oficina de atores em Pinheiros, em 2001, e apareceu pela última vez no SBT em 2024, no documentário sobre Silvio Santos. Deixa a mulher, a jornalista Marilu Torres, com quem era casado desde 1962, e o filho, o diretor Marcelo Travesso. O velório é neste sábado (7), até as 17h, na Funeral Home, na Bela Vista.
Muita gente passou a vida vendo o trabalho do Nilton sem nunca ter visto a cara dele.