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Kátia Flávia
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Morre Benito di Paula: saiba da história de “Charlie Brown”, o hit que nasceu de gibis em italiano e conquistou a Europa

Cantor, compositor e pianista morreu aos 84 anos em São Paulo, vítima de câncer de próstata. Seu maior sucesso levou cinco anos para ficar pronto, foi criado numa pensão de italianos em Santos e ganhou até disco lançado em Madri.

Kátia Flávia

19/10/2026 8h47

Benito di Paula morreu aos 84 anos, em São Paulo, deixando uma trajetória marcada por sucessos do samba romântico brasileiro

Benito di Paula morreu aos 84 anos, em São Paulo, deixando uma trajetória marcada por sucessos do samba romântico brasileiro

Já era madrugada em Madrid. Eu tinha acabado de voltar pro quarto com açúcar dos churros da San Ginés ainda na blusa, celular em 3%, as meninas brigando pela tomada. Aí o grupo da família apitou. Benito di Paula morreu. Sentei no chão. Lá em casa todo mundo amava Benito. Eu também.

Está confirmado. Benito morreu no domingo (18), por volta das 20h de Brasília, no Hospital 9 de Julho, em São Paulo, aos 84 anos. Enfrentava um câncer de próstata havia cerca de um ano, e a assessoria confirmou a morte. Faltava pouco mais de um mês para os 85, que ele faria em 28 de novembro. O filho, Rodrigo Vellozo, postou uma foto dos dois no palco com um recado curtinho: “Te amo, papai! Obrigado!”. Desmontei de novo.

Agora senta, que eu te conto a parte que ficou fora das notas.

“Charlie Brown” nasceu numa pensão de italianos. No fim dos anos 1960, Benito largou a noite do Rio, que pagava pouco, porque um amigo o chamou para ganhar o dobro em São Paulo. Tocava piano em casas noturnas de Santos e da capital e morava com italianos que recebiam de fora as revistinhas do Peanuts, a turma do Snoopy, em italiano. Ele não entendia uma palavra. Pedia para traduzirem os quadrinhos. Se apaixonou pelo Charlie Brown e resolveu convidar o menino para conhecer o Brasil.

Começou a música em 1969 e foi testando nas boates durante cinco anos. Cinco. A gravação saiu em 1974, no disco ao vivo pela Copacabana, e em 1975 “Charlie Brown” era o maior sucesso das paradas do país. Ficou tão grande que Chico Buarque chegou a falar do personagem como se fosse gente de verdade. E tem plot twist no nome: o “Benito” foi escolhido ainda na adolescência, em Nova Friburgo, e o “di Paula” ele mesmo acrescentou para soar italiano. Nome italiano, pensão italiana, gibi italiano. Nenhum autor de novela das nove teria coragem.

Peraí, que fica melhor. Logo depois do lançamento, Benito foi com a delegação brasileira ao MIDEM, a feira internacional de discos em Cannes. Deram três minutos para ele, e ele escolheu “Charlie Brown”. Um trio belga, o Two Man Sound, acelerou a música, cantou em português com sotaque espanhol e chegou ao primeiro lugar na Bélgica e ao sétimo na Alemanha. Depois vieram versões em holandês, alemão, francês, sueco, finlandês, grego, tcheco… Samba de piano hitou na Europa inteira.

E foi aqui que eu engasguei de vez. Em 1977, saiu em Madrid a coletânea “Desde Brasil… Benito di Paula”, pela Discos Columbia, com “Charlie Brown” no repertório. Em 1978 veio “Caprichos de la vida”, um disco inteiro cantado em espanhol. Eu descobri isso de madrugada, com a blusa açucarada, na cidade que já tocava Benito antes de eu nascer. Vale. Me deixa.

Agora a parte que arde. Nos anos 1970, parte da crítica achou o bigode, o cabelo comprido e o samba romântico com piano coisa de cafona. Teve quem chamasse de traidor do samba. Ele se dizia “sambeiro” e “pianeiro”, fazia a batucada no teclado, como se o piano fosse pandeiro e surdo, e vendeu mais de 50 milhões de discos. Hoje esse suingue é apontado como precursor do pagode paulista dos anos 1990. A crítica ficou com a opinião dela. Benito ficou com as rádios. Em 2003, ainda gravou “Do Jeito Que a Vida Quer” com o Revelação e conquistou outra geração.

Em 2025, virou enredo da Águia de Ouro no Carnaval de São Paulo e desfilou no último carro, ao lado do filho, numa alegoria chamada “Meu Amigo Charlie Brown”. O convite da música foi aceito, enfim, na avenida. O último show foi em 31 de julho deste ano, na Casa Natura Musical, em Pinheiros: o “Benito 85”, projeto do Rodrigo, com participação de Zeca Baleiro. Benito deixa o filho e duas netas.

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