Entre um ataque do Brasil e outro, eu piscava para a TV e para o feed ao mesmo tempo. Quando fui conferir o perfil de Michelle, lá estava o detalhe que muda o jogo: ela não segue mais Eduardo, não segue mais Carlos, e só mantém o follow em Flávio Bolsonaro. Nada de pronunciamento oficial, nada de “rompimento”, nada de comunicado; é aquele recado que o Brasil já aprendeu a ler em 2026: o unfollow diz mais que qualquer coletiva de imprensa.
O peso disso é que Michelle e Eduardo não eram dois desconhecidos de corredor. Eles já foram apresentados como dupla afinada, circularam juntos, viajaram para o exterior, representaram Jair Bolsonaro em momento de prestígio internacional, se exibiram como vitrine da direita bolsonarista. Agora, o que a gente vê é o silêncio do “deixar de seguir” de um lado e, do outro, um Eduardo que ainda mantém a madrasta na lista, mas usa outra rede para bater, repostar crítica, cutucar, como se estivesse disputando quem vai herdar o bastão político da família.

Essa fase da treta não começou hoje. Nos últimos dias, Michelle apareceu em vídeo, emocionada, relatando humilhações, desrespeito, situações em que se sentiu maltratada dentro da própria família. Ela não falou em detalhes de todos, mas deixou claro que a relação com os filhos do marido já vinha desgastada. A reação dos meninos não veio com pedido de desculpa e abraço apertado; veio em forma de conversa atravessada, irritação nos bastidores e muito ruído nas redes.
Para apimentar, essa briga é travada em linguagem gospel: é uma guerra de versículos bíblicos. De um lado, posts falando de mentira, injustiça, gente sendo desacreditada de forma falsa. Do outro, textos sobre falsidade, engano, caráter, tudo na base de “quem tem ouvidos ouça”. Você lê o versículo, olha o momento, junta com o unfollow e entende exatamente quem está apontando para quem, mesmo sem ninguém escrever o nome do alvo.
Não bastasse a confusão entre Michelle e os enteados, o resto do clã resolveu entrar em campo. Rogéria Bolsonaro, mãe dos três filhos mais velhos, apareceu para defender os “homens que criou”, chamando-os de dignos e honrados, numa mensagem que tem cara, cheiro e formato de resposta. Como se dissesse: mexeu com meus meninos, mexeu comigo. Aí vem Fernanda Bolsonaro, mulher de Flávio Bolsonaro, e joga mais lenha na fogueira com postagens bíblicas sobre mentira e verdade, que são prontamente reforçadas nas redes dos filhos.
Lá atrás, quando a poeira da eleição ainda nem tinha baixado, já tinha tido unfollow envolvendo o perfil de Jair Bolsonaro e o de Michelle, e o episódio foi atribuído ao fato de que uma das contas era administrada por Carlos Bolsonaro. Sem comunicado oficial, sem nota, só aquele jogo de segue e deixa de seguir que virou a linguagem oficial das crises de família do bolsonarismo. A diferença é que, agora, não é um tropeço isolado: é a etapa mais recente de uma sequência de desgastes, vídeos, desabafos e indiretas.
Os bombeiros da política até tentaram entrar no gramado: teve gente ligando, articulando, pedindo calma, falando em pacificação da direita, aquele papo de “vamos resolver isso internamente”. Só que a prática mostrou outra coisa. O que poderia ter sido contido virou linha do tempo: vídeo da Michelle, recado dos filhos, defesa da mãe, versículos da nora, textos de aliados acusando a ex-primeira-dama de estar fazendo birra porque queria outro papel no jogo político.

Então volto para a minha realidade de torcedora: o narrador grita ataque do Brasil, a torcida vibra, o Japão se fecha na defesa, e eu com o dedo nervoso rolando a tela pra baixo. No topo, o placar do amistoso. Logo abaixo, o placar da família Bolsonaro: Michelle para de seguir Eduardo e Carlos, a Bíblia vira munição, todo mundo jurando estar defendendo a verdade. O país assistindo a tudo como se fosse novela, e eu aqui, venenosa, sabendo que tem muita gente mais interessada em saber quem vai dar follow em quem do que em quantos gols o Brasil vai fazer.
No fim das contas, a cena é essa: o país inteiro olhando para o campo, e eu olhando para o feed. Porque quando Michelle deixa de seguir Eduardo e Carlos, não é só um ajuste de lista de amigos. É a confirmação, em linguagem de rede social, de que a fratura na família Bolsonaro parou de ser sussurro de bastidor e virou episódio oficial da grande série chamada “política nacional”.