Cornelia Wendel, médica paranaense de Rolândia, acaba de estrear na literatura com “Uma maçã para quatro”, um romance histórico que mergulha no Holocausto e na imigração alemã, costurando as feridas que uma família carrega de geração em geração. Eu ia saindo de casa para a academia em Leblon quando uma amiga me ligou já com a voz embargada, dizendo que tinha lido o livro de uma sentada só. Larguei a bolsa no sofá, sentei e ouvi tudo, porque obra que faz gente chorar antes das nove da manhã merece a minha atenção integral.
O romance sai pela Editora Labrador, tem mais de quatrocentas páginas e acompanha principalmente Corina, uma mulher moldada pelas cicatrizes emocionais herdadas da mãe, Bertha, sobrevivente direta da perseguição nazista. Ao redor dela giram Ernest, o avô ligado à tradição judaica europeia, e Willy, ex-soldado alemão tentando reconstruir a vida no Brasil. É a Segunda Guerra Mundial invadindo a sala de jantar de uma família comum, com toda a culpa e todo o afeto que isso arrasta atrás.

Cornelia nasceu em 1965, filha de um lavrador de origem alemã e de uma dona de casa de origem judaica, e faz questão de dizer que a ideia de escrever nem era dela. Era de um amigo apaixonado por história que vivia insistindo: “Alemoa, tu tens que escrever sobre isso, ainda vira best-seller”. Um belo dia ela rascunhou a primeira página, as outras vieram atrás e o livro nasceu retratando o legado da própria família. Médica de profissão e leitora de carteirinha desde menina, ela chegou à literatura já com a coragem de mexer em assunto grande.
A história se passa entre a Alemanha e o interior do Paraná, amarrando o choque cultural com a reconstrução de identidade em terra brasileira. E faz uma coisa que eu achei valente: desmonta aquela ideia romantizada de resiliência, mostrando que superar trauma não corre em linha reta nem termina com final bonitinho. Bertha carrega marcas que respingam direto na criação das filhas, e o livro tem a honestidade de não maquiar nada disso.

Tem ainda um documentário a caminho, “Onde Estiver, Estarei”, para quem quiser ir além das páginas. Cornelia resume o desejo dela numa frase que me pegou: que o leitor enxergue o fio invisível que liga geração após geração sem nunca se romper. Anotei o nome, mandei a amiga me arrumar um exemplar e já avisei que vou cobrar lágrima de todo mundo que reclamar por aí que não existe mais romance brasileiro que preste.