Eu estava largada no sofá aqui do Cosme Velho, controle numa mão e celular na outra, quando li a frase e me sentei direito. MC Carol disse, com todas as letras, que nasceu feminista. E contou exatamente onde descobriu isso: na quadra da escola.
Foi num painel do Festival Cria Brasil sobre arte como ferramenta de impacto. Carol lembrou que tudo o que queria naquela época era jogar bola, e a resposta vinha sempre igual: não pode, porque é menina. “Aquilo me incomodava, porque eu era capaz”, disse. Capaz de jogar futebol e de tudo que um menino podia, nas palavras dela.

Agora vem a parte que me pegou. Ela voltou à infância com os bisavós e à perda da família para explicar como a arte e a consciência feminista a levaram para outra realidade. “Eu já era feminista e não sabia, porque eu via esses preconceitos e não aceitava.” Pois é. A menina barrada na quadra virou a mulher que hoje fala para muitas meninas que já são feministas sem saber.
A mesa ainda tinha Alice Carvalho, atriz de O Agente Secreto, filme indicado ao Oscar, que defendeu não esquecer de onde se vem, mesmo trabalhando dentro das grandes empresas. Também participaram a cineasta Larinha Dantas e a atriz e diretora Ana Carolina Sauwen, que fez a mediação.

O festival é da Criape, em correalização com a Brada e com incentivo da Secretaria Municipal de Cultura do Rio pela Lei de Incentivo à Cultura do ISS. Os organizadores vendem o evento como o maior de economia criativa do país: foram três trilhas, mais de trinta palestras, centenas de pessoas segundo Vanessa Pires, CEO da Brada, e uma Maratona de Impacto com prêmios de até R$ 15 mil para projetos sociais.
Quem tirou a Carol da quadra perdeu uma jogadora e ganhou uma das vozes mais incômodas do funk. Bem feito.