Eu já estava com a chave do carro na mão, prontíssima para encarar uma estrada até Petrópolis , quando o telefone tocou e era a Lucinha, minha embaixatriz particular em Brasília, com aquela voz fininha de quem acabou de achar o esqueleto no armário alheio. Larguei a bolsa em cima da bancada e sentei na hora. Quando a Lucinha fala baixinho é porque o babado é graúdo, e esse, meus amores, veio com nota fiscal anexada.
A Folha de S.Paulo, pelas mãos da Nathalia Garcia e da Idiana Tomazelli, teve acesso à ata que ninguém ali queria ver circulando. O Sinal, sindicato dos funcionários do Banco Central, na regional do Distrito Federal, contratou a atriz Luana Piovani por trezentos mil reais para gravar um vídeo metendo o pau na PEC que dá autonomia financeira ao BC. A contratação foi aprovada numa reunião com cinco votos a favor e uma abstenção, e a moça postou o resultado no dia 9 de junho marcando o sindicato e carimbando a hashtag publi, que em bom português quer dizer que o dinheiro trocou de mão.
No vídeo, a Luana aparece sentadinha na frente de uma cristaleira, caderno aberto, anunciando que aquele é o cantinho dela de papo reto. Contou que fez anotações, deu uma estudada e até pediu socorro a universitários para entender o assunto, e concluiu que deixar o Banco Central soltinho da vida teria cheiro de perigo e seria um risco gigantesco. Comovente. Pena que, dias antes, o próprio sindicato tinha negado pagamento à artista, e que ao ser procurada pela Folha ela avisou educadamente que não daria entrevista.
Agora me deixem ligar o meu lado realista, porque eu não nasci ontem e a Luana muito menos. Ninguém é obrigado a sair distribuindo indignação de graça, publi é trabalho como qualquer outro, e a moça tem todo o direito de faturar com a língua afiada que Deus lhe deu. O number delicioso é embrulhar contrato em papel de presente de cidadania, fazer carinha de quem acordou às cinco da manhã aflita com o futuro da República, tendo um cachê assinado esperando a bênção do conselho. A indignação dela passou no caixa antes de passar no coração.
As redes captaram o valor da nota antes mesmo de digerir o conteúdo do discurso, e a tal hashtag publi virou o verdadeiro protagonista do enredo, porque a plateia entendeu rapidinho que cidadã preocupada e influenciadora contratada são dois crachás bem diferentes. O sindicato, que já tinha torrado outros valores em campanha contra a mesma PEC, não respondeu à reportagem, e a Luana repetiu a cartilha de não dizer nada. Convenhamos que para quem se vende como rainha do papo reto, esse mutismo todo soa um tiquinho desafinado.
Eu sigo achando a Luana uma das bocas mais deliciosas que esse país já botou no ar, e é justamente por isso que a conta não fecha pra mim. Ela sabe muito bem a diferença entre dar a cara a tapa por convicção e alugar a cara por trezentos mil, e apostou que a plateia estava distraída demais para reparar. Reparou. Na próxima vez que ela abrir o caderninho para fazer papo reto, o Brasil inteiro vai estar conferindo se o reto não vem acompanhado de boleto. Beijos, e que venha logo a próxima ata.