Eu estava em Madrid, com as amigas, tentando decidir se merecia mais uma rodada de tapas no Mercado de San Miguel, quando apareceu Luana Piovani no meu celular. Gente, misericórdia! A mulher queria praticamente fechar a TV Globo, ver cabeças rolando e colocar Luciano Huck no banco dos réus da opinião pública. Segura minha caña, porque eu precisei assistir duas vezes. Na primeira, ouvi os gritos. Na segunda, procurei as provas.
Eis a questão, minhas filhas: Luana Piovani pode ter opinião sobre absolutamente tudo. O que ela não pode é transformar sua opinião em sentença judicial e esperar que o país inteiro bata palmas. No vídeo, a atriz acusa a Globo de divulgar fake news, chama profissionais de pilantras, questiona a relação de Luciano Huck com Daniel Vorcaro e ainda cobra manifestações públicas de pessoas próximas ao apresentador. É um tribunal completo, com acusação, julgamento e condenação. Só esqueceram de convidar a defesa.
Vamos ao Luciano Huck, porque amizade virou artigo do Código Penal e aparentemente ninguém me avisou. A relação do apresentador com Vorcaro merece, sim, questionamentos sobre eventuais interesses comerciais e conflitos de interesse. Mas onde está a demonstração de que Huck participou dos crimes atribuídos ao empresário? Onde está a prova de que utilizou seu programa para praticar alguma ilegalidade? Uma conversa, uma amizade ou uma negociação comercial não bastam, isoladamente, para estabelecer cumplicidade criminal. Eu sou fofoqueira de quinta categoria, querida, mas até a fofoca precisa apresentar documento quando resolve vestir a toga.
E a Globo? Ah, a Globo! Luana reconhece que realizou trabalhos maravilhosos na emissora, elogia sua dramaturgia e, logo depois, praticamente pede a demolição do jornalismo da casa. Não existe contradição obrigatória entre admirar novelas e criticar reportagens. O problema começa quando uma crítica específica vira acusação contra uma empresa inteira, sem distinguir profissionais, decisões editoriais e eventuais irregularidades. Frederic Kachar, executivo do Grupo Globo, foi desligado após a divulgação de conversas com Vorcaro. Isso merece escrutínio. Mas responsabilizar toda a redação por uma conduta individual seria tão absurdo quanto culpar o elenco inteiro de uma novela pelo comportamento de um único ator.
A atriz também cita Malu Gaspar e questiona a credibilidade de reportagens. Pois muito bem. Jornalistas devem prestar contas de suas apurações, corrigir erros e apresentar evidências. Mas quem acusa uma redação de produzir desinformação deliberada também precisa demonstrar onde houve falsidade e por que ela teria sido intencional. Uma reportagem contestada não equivale automaticamente a uma fraude. Luana exige responsabilidade da imprensa enquanto distribui acusações amplas diante de uma câmera. É uma régua curiosa: rigor absoluto para os outros, convicção suficiente para si.
Agora vem a parte que me fez abandonar mentalmente até o jamón. Luana quer saber por que amigos de Luciano Huck não se manifestaram. Sugere medo, interesses ocultos, gente de rabo preso. Minha senhora, desde quando silêncio virou confissão? Ninguém precisa publicar uma hashtag de solidariedade para comprovar inocência, caráter ou independência. A amizade de alguém com um investigado não transforma automaticamente todos os convidados de seu jantar em integrantes de uma organização criminosa. Se fosse assim, a Justiça precisaria contratar até os porteiros dos condomínios para organizar os processos.
E existe um capítulo da própria trajetória de Piovani que torna essa discussão especialmente delicada. Em outubro de 2025, foi noticiada uma condenação da atriz em primeira instância por injúria contra Neymar, decorrente de declarações públicas. Sua defesa anunciou recurso, e uma decisão recorrível não deve ser tratada como condenação definitiva. Mas o episódio serve para recordar algo importante: a liberdade de expressão convive com responsabilidades jurídicas. Quem conhece de perto uma controvérsia judicial provocada por palavras deveria compreender a importância de medir acusações.
Luana também associa a emissora à extrema direita e fala em fascismo. Pode criticar governos, políticos, empresários e jornalistas à vontade. Democracia é isso. Mas chamar uma organização inteira de cúmplice de desinformação ou atribuir crimes a pessoas determinadas exige muito mais que indignação política. Uma notícia não vira fake news porque desagradou à atriz, assim como uma acusação não vira verdade porque foi pronunciada com os olhos arregalados e o dedo apontado para a câmera.
Eu defendo que Luciano Huck responda às perguntas pertinentes sobre suas relações comerciais. Defendo que a Globo seja cobrada por seus erros, quando comprovados. Defendo que Malu Gaspar e qualquer jornalista tenham seus trabalhos submetidos ao escrutínio público. E defendo, com a mesma firmeza, que Luana Piovani seja responsabilizada pelo conteúdo das próprias afirmações quando ultrapassarem os limites legais. Porque independência jornalística não significa imunidade, mas indignação de celebridade também não concede autoridade judicial.
A imprensa não está acima da crítica. Luana Piovani tampouco. A diferença é que uma redação responsável precisa sustentar suas publicações com apuração, documentos e possibilidade de contestação. Quem se apresenta ao público como fiscal da verdade deveria aceitar exatamente o mesmo padrão.
E termino aqui, em Madrid, pensando que Alice caiu no País das Maravilhas e encontrou uma rainha que mandava cortar cabeças antes mesmo de compreender o julgamento. Luana parece ter gostado especialmente dessa parte da história. Eu prefiro outra: aquela em que os fatos importam mais que os gritos.
Porque falar o que pensa é um direito. Provar o que acusa é uma responsabilidade. E volume de voz, minha querida, nunca foi unidade de medida da verdade.