Acordei hoje com a casa ainda em silêncio e a cabeça naquela ressaca eleitoral que todo brasileiro conhece bem depois de um segundo turno. Lista de coisas para resolver, telefone tocando sem parar em cima da mesa, e eu ali, de caneca na mão, abrindo o portal do Leonardo só para ver o que tinha saído de madrugada. Aí dei de cara com a coluna do Flávio Ricco e sentei de novo. Gente. O Celso Freitas vai embora.
Ricco conversou com o próprio apresentador, que encerra a passagem pelo SBT e se despede da televisão nesta segunda. Sem crise, sem briga de contrato, sem nota misteriosa de assessoria. Ele mesmo explicou: “Quero ter mais tempo para curtir a vida. Lá se vão 56 anos de jornada”. Pronto. Num meio em que todo mundo sai dizendo que vai “se dedicar a novos projetos”, ele teve a elegância de admitir que o projeto agora é ele mesmo, tanto que nem detalhou planos para depois da despedida.

E agora vem o detalhe que eu acho maravilhoso. Celso não saiu no meio do caminho, saiu logo depois de participar da estreia do SBT News. É o terceiro canal de notícias que ele ajuda a inaugurar no Brasil, depois da GloboNews e da Record News. O homem é praticamente o padrinho oficial de canal jornalístico neste país. Ele disse que é extremamente grato por ter participado da estreia e fez questão de lembrar o tratamento especial que recebeu nesses trabalhos e a chance de fazer algo diferente do noticiário duro do dia a dia. Quer coisa mais chique do que acender a luz da casa nova e depois sair de cena?
Para quem só conhece o Celso das noites da Record, um pouco de memória. Ele é de Criciúma, em Santa Catarina, começou no rádio aos 16 anos e construiu a carreira na televisão a partir de Brasília, o que faz desta despedida quase uma notícia da casa para quem lê esta coluna. Na Globo, ganhou o país em 1983, quando assumiu a bancada do Jornal Nacional ao lado de Cid Moreira, e ficou lá até 1989. Também apresentou o Fantástico e o Globo Repórter, e fez parte da programação da GloboNews. Ou seja, durante anos ele foi literalmente a voz que entrava na sala do brasileiro antes da novela das oito.
Em 2004 veio a virada: trocou a Globo pela Record. Passou pelo Domingo Espetacular e pelo Repórter Record e, dois anos depois, assumiu o Jornal da Record, que virou o principal trabalho dele na emissora e a cara pela qual uma geração inteira passou a reconhecê-lo. Depois ainda ajudou a colocar a Record News no ar, até chegar ao SBT para fechar o ciclo com mais um lançamento.

Numa segunda em que o país inteiro acordou querendo discutir urna, voto e resultado, a notícia que me fez largar a caneca foi a de um senhor de 56 anos de profissão avisando, com toda a calma do mundo, que agora vai viver. Obrigada pelo jornalismo de primeira, Celso. E eu, com essa ressaca e o telefone berrando aqui do lado, confesso: deu uma invejinha.