Fatemeh Khishvand, iraniana que ficou mundialmente conhecida como Sahar Tabar e foi apelidada de “Angelina Jolie Zumbi”, vive hoje longe das redes sociais em Teerã. Presa em 2019 sob acusações relacionadas às rígidas normas morais do Irã, ela deixou a prisão em 2022, após cerca de 14 meses, e revelou que as imagens que a tornaram famosa eram resultado principalmente de maquiagem e edição digital.
Em Angra, com as amigas ainda na mesa do brunch e a chuva mantendo todo mundo dentro de casa, eu fiquei olhando aquelas fotos antigas enquanto separava mais frutas. E confesso: por trás do choque visual que virou meme mundial, existe uma história muito menos engraçada do que a internet quis enxergar.
Sahar ganhou milhões de visualizações ao publicar imagens com rosto extremamente afinado, lábios exagerados e aparência cadavérica. Na época, circularam rumores de que ela teria feito dezenas de cirurgias para se parecer com Angelina Jolie. A versão viral, porém, não era verdadeira.

Depois de deixar a prisão, ela apareceu sem os filtros em entrevista à televisão iraniana e explicou que usava Photoshop e maquiagem pesada para montar a personagem. Fatemeh admitiu ter recorrido a alguns procedimentos estéticos, mas negou que sua aparência famosa fosse resultado de uma sequência extrema de cirurgias.
Eu mexi no café e pensei como a internet adora transformar uma mulher em caricatura antes de perguntar quem ela é. A pessoa vira apelido, foto de comparação e piada compartilhável. Só que, do outro lado, havia uma jovem tentando ficar famosa em um país onde até a presença de uma mulher na internet pode ser tratada como afronta.
Fatemeh foi detida em outubro de 2019. Ela enfrentou acusações como blasfêmia, corrupção moral e obtenção de renda considerada inadequada pelas autoridades iranianas. Uma condenação de dez anos chegou a ser divulgada, mas ela foi libertada em 2022, em meio à pressão de ativistas e ao contexto de grandes protestos no país.

A influenciadora relatou que desejava ser famosa desde pequena e que encontrou nas redes sociais um caminho para chamar atenção. Depois da prisão, porém, se afastou do ambiente digital e passou a levar uma vida reservada em Teerã, sem alimentar a persona que havia criado.
Enquanto as amigas escolhiam o que repetir no prato, eu deixei o celular de lado e fiquei com uma certeza: a história não é sobre uma “Angelina Jolie Zumbi”. É sobre uma mulher que inventou uma imagem para sobreviver à lógica cruel da fama e acabou pagando um preço alto demais por ela.