Eu estava saindo de casa rumo à academia no Leblon quando uma amiga me ligou completamente indignada para contar que a influenciadora Ju Isen tinha passado trinta dias sem dirigir uma única palavra ao ChatGPT. Dei meia-volta na mesma hora. Porque gente que descobre estar emocionalmente envolvida com inteligência artificial é o tipo de trama contemporânea que merece atenção.
A história começou durante as sessões de terapia. Segundo Ju Isen, o próprio terapeuta percebeu que a ferramenta aparecia em praticamente todas as conversas. Fosse para resolver dúvidas do dia a dia, organizar compromissos ou refletir sobre questões pessoais, o ChatGPT sempre acabava entrando no assunto.

Foi então que veio a proposta: passar trinta dias sem utilizar a plataforma.
No início, a influenciadora achou que a sugestão era exagerada. Afinal, muita gente usa inteligência artificial para tarefas cotidianas sem imaginar qualquer tipo de dependência. Mas bastaram os primeiros dias para que ela percebesse que a relação era mais intensa do que imaginava.
Segundo Ju, sempre que surgia uma dúvida, um problema ou uma necessidade de orientação rápida, a reação automática era procurar a ferramenta.
“Eu me peguei diversas vezes querendo abrir o aplicativo para perguntar coisas simples. Foi quando percebi o quanto aquilo já fazia parte da minha rotina”, relatou.
O que mais chamou atenção, porém, foi a forma como o uso ultrapassava questões práticas.
A influenciadora revelou que também recorria à inteligência artificial para conversar sobre sentimentos, relacionamentos, inseguranças e conflitos emocionais. Em muitos momentos, buscava respostas, validações ou reflexões dentro da plataforma, transformando a ferramenta em uma espécie de conselheira digital disponível vinte e quatro horas por dia.
Foi justamente esse comportamento que motivou a preocupação do terapeuta.
Durante o período de afastamento, Ju Isen afirma que precisou voltar a lidar diretamente com dúvidas, emoções e decisões sem recorrer imediatamente à tecnologia. A experiência, segundo ela, serviu para recuperar parte da autonomia emocional que havia sido terceirizada para a inteligência artificial.
Ao final dos trinta dias, a influenciadora voltou a utilizar o ChatGPT, mas afirma que estabeleceu novos limites para a relação com a ferramenta.
Hoje, ela diz enxergar a plataforma como um recurso de apoio para trabalho, pesquisa e organização, sem ocupar o espaço de pessoas reais ou substituir processos importantes de reflexão pessoal.

Eu confesso que fiquei pensando no assunto enquanto amarrava o tênis de novo. Porque a história parece engraçada à primeira vista, mas talvez diga muito sobre o nosso tempo. A gente conversa com aplicativo, pede opinião para algoritmo, compartilha angústia com uma tela e, sem perceber, transforma conveniência em companhia.
No fim, a experiência de Ju Isen não fala apenas sobre inteligência artificial. Fala sobre solidão, praticidade e sobre a facilidade com que qualquer ferramenta útil pode acabar ocupando espaços que antes pertenciam às relações humanas.
E isso, meu amor, talvez seja a parte mais interessante de toda essa história.