Eu estava chegando na academia quando o grupo das amigas do Joá começou a apitar sem parar. Abri, li, li de novo e fiquei parada na porta, com aquela tristeza que dá quando a gente vê uma coisa bonita sendo estragada. Jorge e Mateus foram tirados do Réveillon de Fortaleza e do Réveillon do Recife na mesma noite.
Fortaleza saiu na frente. Evandro Leitão anunciou o cancelamento da apresentação na capital cearense e, pouco depois, Victor Marques foi ao Instagram dizer que a dupla também estava fora da virada no Recife. No texto, o prefeito escreveu que, diante das circunstâncias, não há mais clima para manter os sertanejos na programação. O post passou de 34 mil curtidas e 12,4 mil comentários.

O estopim foi político. Jorge participou de um mutirão de cantores sertanejos pela candidatura de Flávio Bolsonaro nas eleições de 2026, e os dois prefeitos declararam apoio à reeleição de Lula no segundo turno. Depois do posicionamento do cantor, a dupla virou alvo de boicote de parte do público do Nordeste na internet. E repara num detalhe: o gesto foi do Jorge, mas quem também perde o palco é o Mateus.
Agora a parte que me deixou de sobrancelha em pé. O mesmo post do Recife abre dizendo que a virada do ano é festa de união, alegria, respeito e harmonia, e em seguida tira do palco um artista por causa de apoio eleitoral. No vídeo, Victor Marques ainda lembrou que o Réveillon da cidade é o maior do Nordeste e movimenta hotel, bar e restaurante. Pois é, e quem enche hotel, bar e restaurante é justamente artista desse tamanho.
Com todo respeito aos prefeitos, achei cafona. O Brasil que eu conheço é festeiro, misturado e generoso, e esse clima de vingança na programação de Ano Novo não combina com ele. Jorge e Mateus são poetas da música popular, gente que faz milhares de pessoas cantarem a mesma letra abraçadas na beira da praia. Não dá para ser a favor.

Até a noite de terça, a assessoria da dupla ainda não tinha comentado os cancelamentos. Enquanto isso, quem fica sem a virada cantada a plenos pulmões é o público de Recife e de Fortaleza, e no fim das contas quem perde é a cidade.