Eu estava sentada na minha casa, no Cosme Velho, comendo meus damascos, quando me deparei com uma notícia que merecia até largar o pratinho. Minha gente, os bispos resolveram entrar no debate eleitoral e Flávio Bolsonaro virou o assunto da vez. Não foi uma bronca de confessionário, não. Foram 56 bispos e arcebispos assinando uma carta com críticas pesadas à candidatura do senador à Presidência da República. A informação foi publicada por Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo.
E o documento não economiza nas palavras. Os religiosos afirmam que a candidatura de Flávio ameaça a democracia, a soberania nacional e a prática do bem comum. Também questionam posições atribuídas ao candidato sobre a liberação de armas, a crise climática e as relações com os Estados Unidos. Tudo isso às vésperas do segundo turno das eleições de 2026. Convenhamos, não é exatamente uma conversa tranquila depois da missa.
O detalhe que me fez prestar ainda mais atenção foi a articulação do movimento Bispos do Diálogo pelo Reino. Segundo a reportagem, o grupo participou da elaboração e divulgação do manifesto. São integrantes da Igreja Católica se posicionando publicamente, mas isso não transforma a carta numa declaração oficial de todo o episcopado brasileiro ou da CNBB. Uma diferença que, no calor da disputa, não pode desaparecer.
A carta também recupera as homenagens feitas pela família Bolsonaro ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, associado à repressão e à tortura durante a ditadura militar. Os signatários utilizam esse histórico para explicar suas preocupações com a ordem democrática. O manifesto ainda contrapõe essas críticas a uma avaliação mais favorável da candidatura de Lula, embora reconheça que ela também está sujeita a questionamentos.
E prestem atenção: o documento não se limita a comentar a eleição. Os religiosos convocam os católicos a comparecer às urnas no domingo (25), defendendo uma escolha orientada pela democracia, pelos pobres e pelos valores humanitários. É uma manifestação que coloca religião e política na mesma conversa, sem esconder de que lado estão as críticas.
Eu terminei meus damascos pensando no tamanho dessa discussão. O eleitor católico não recebeu uma ordem de toda a Igreja, mas uma manifestação pública de 56 integrantes de sua hierarquia religiosa. E o Flavião, que já estava no centro da disputa presidencial, agora também aparece no centro de uma controvérsia envolvendo bispos, fé e democracia. Desta vez, o sermão veio por escrito, com assinaturas e endereço político bem definido.