Eu parei na esteira. A Jequiti mudou de família: a marca de cosméticos do Grupo Silvio Santos foi vendida ao Grupo José Alves por cerca de R$ 536 milhões. Quem entrou no camarim da perfumaria brasileira não foi um novato querendo testar fragrância no pulso, mas um conglomerado goiano que construiu musculatura com refrigerante, logística, indústria e distribuição em escala, informou o divino Flavio Ricco.
O principal negócio do novo dono é a Refrescos Bandeirantes, fabricante e distribuidora de produtos Coca-Cola em Goiás e Tocantins. É ela que põe o caminhão na rua, abastece varejo, bares e supermercados e dá ao grupo uma capilaridade que não aparece na embalagem, mas manda na festa. O GJA chegou à franquia regional da Coca-Cola em 1986 e colocou a operação em funcionamento em 1987.
A Jequiti, portanto, entra no guarda-roupa de um grupo que já conhece produto de consumo, linha de produção, embalagens e canal de venda. O José Alves não comprou uma marca para deixar cheirando na estante, querida. Comprou uma operação que conversa com negócios que o conglomerado já domina: fazer, embalar, distribuir e colocar mercadoria diante do consumidor sem depender de milagre de campanha publicitária.
A história do grupo começou bem antes de qualquer bolha da Faria Lima. Em 1962, José Alves fundou em Goiás um atacado de secos e molhados. A família foi crescendo no comércio, avançou para bebidas e, décadas depois, montou uma carteira que inclui a farmacêutica Vitamedic, a fabricante de embalagens Rembal, a empresa de água mineral Rebic, a indústria de higiene e limpeza N&L, as instituições de ensino UNIALFA e FADISP, a 3T Systems, de tecnologia e rastreamento, e a J&L Real Estate, no setor imobiliário.
O comando atual está com José Alves Filho, representante da segunda geração da família. É o tipo de sucessão sem holofote de tapete vermelho, mas com planilha na mão e parque fabril no currículo. O conglomerado informou faturamento de R$ 3,6 bilhões em 2024 e, no fim de 2025, anunciou investimento de R$ 100 milhões numa fábrica de suplementos e vitaminas em Anápolis, Goiás. O moço não está brincando de diversificar; ele está comprando categorias para a família inteira.
O retrato financeiro exige taça de cristal e olho aberto. A GJA Indústrias, holding industrial do grupo, reportou receita líquida de R$ 2,59 bilhões em 2025, Ebitda de R$ 348 milhões e dívida líquida de R$ 1,592 bilhão. A alavancagem subiu conforme a empresa investiu na expansão da Vitamedic, no início das operações da N&L e na ampliação de capacidade produtiva. Ebitda, para ninguém sofrer numa reunião de RI, é um indicador de geração operacional de caixa antes de despesas financeiras, impostos e efeitos contábeis.
A compra da Jequiti chega depois de uma tentativa frustrada de venda para a Cimed em 2024. A farmacêutica ficou perto de levar a marca, mas a negociação não saiu do papel. Agora, o Grupo José Alves aparece como quem trouxe o cheque, aceitou as condições e não quis esperar a segunda chamada.
Para a Jequiti, a troca de controle coloca a marca dentro de um grupo privado acostumado a operações físicas, distribuição regional e fabricação de produtos de alto giro. Para o José Alves, significa entrar de vez na beleza, categoria em que embalagem, inovação, marca e rede comercial precisam andar de mãos dadas. É uma expansão que tem lógica industrial, mas pede delicadeza comercial: perfume não se vende igual lata de refrigerante, embora ambos dependam de um detalhe muito pouco glamouroso chamado execução.
No fim, a família Abravanel passa uma marca histórica para uma dinastia goiana que conhece o mapa do consumo brasileiro pelo avesso. A Jequiti ganhou novo dono. E ele chegou com caixa, caminhão e uma sede corporativa que, pelo visto, não era de Coca-Cola.