Eu estava no cabeleireiro, com a raiz coberta de tinta e o colorista mandando eu não mexer a cabeça como se estivesse em depoimento, quando caiu no meu colo essa novela com Richarlison, Flávio Bolsonaro e, pasmem, Clara Nunes no prólogo. Fingi tranquilidade, claro. Dei um gole no café de salão, olhei para o espelho e pensei: meu amor, quando uma ilha começa com Clara Nunes, passa pelo Pombo e termina no entorno de Flávio, não é disputa imobiliária. É samba-enredo com matrícula em cartório.
A história mais recente veio à tona depois que a advogada imobiliária Ana Paula Zantut publicou um vídeo explicando a disputa. Richarlison comentou a publicação e confirmou a bronca: disse que gastou cerca de R$ 10 milhões no imóvel e que simplesmente foi tomado dele, afirmando que segue até hoje sem receber o valor de volta.

Richarlison e seu empresário compraram a propriedade, mas, depois, a posse do imóvel teria sido adquirida por uma empresa ligada a Willer Tomaz, advogado e amigo de Flávio Bolsonaro. A briga, então, passou a ser sobre quem tem, de fato, direito de usar e ocupar a mansão.
Flávio Bolsonaro não é parte da ação, mas aparece no entorno do caso. O senador foi arrolado como testemunha pelos advogados do jogador. Antes da venda para a empresa de Richarlison, Flávio visitou o imóvel em 2020, acompanhado da esposa e de Wilder Morais. Em janeiro de 2021, voltou ao local com Willer Tomaz, que demonstrou interesse na propriedade, mas teria sido informado de que ela já havia sido vendida ao grupo do atleta.
Na época, Flávio afirmou não ter relação com o imóvel nem com o processo, dizendo manter apenas amizade com Willer Tomaz. Também declarou que seu depoimento pouco acrescentaria ao caso, já que não conhecia detalhes da negociação nem da disputa judicial.
Mas é aí que a história desce para o porão, onde toda mansão de novela guarda documento velho, assinatura contestada e um parente dizendo “eu avisei”. Segundo a advogada Ana Paula Zantut, uma das mulheres ligadas à empresa que detinha a posse afirma ter sido induzida a erro ao assinar o contrato de transferência. Se isso for comprovado, o documento pode ser anulado, fazendo com que tanto a propriedade quanto a posse retornem para Richarlison e o empresário dele.
Enquanto o cabeleireiro separava outra mecha e eu fingia não estar completamente investida na trama, chegou a parte Clara Nunes da história. A ilha teria sido refúgio da cantora nos anos 1970, quando ela conseguiu da Marinha o usufruto do local. Clara construiu ali uma casa e transformou a área em um espaço pessoal. Após sua morte, em 1983, a história da posse teria passado por novas mãos, até chegar às senhoras ligadas à origem da disputa atual.
Ou seja: aquilo que começou como refúgio de uma das maiores vozes do Brasil virou, décadas depois, uma briga envolvendo jogador da Seleção, advogado famoso, senador bolsonarista, empresa, reintegração de posse e acusação de assinatura problemática. Clara Nunes deve estar olhando isso de algum plano espiritual com um pandeiro numa mão e um processo na outra.
O interesse antigo de Flávio pelo imóvel ganha peso porque a disputa volta a esquentar bem no meio do debate sobre a PEC das Praias. O senador é relator da proposta, que discute a transferência de terrenos de marinha e vem sendo criticada por supostamente abrir caminho para beneficiar ocupações privadas em áreas litorâneas.
Esse é o ponto que fez a internet juntar uma coisa na outra. Flávio nega ter relação com a disputa judicial em si. Mas o fato de ele ter visitado a mansão, ter amizade com Willer Tomaz, ter sido arrolado como testemunha e ser o relator de uma PEC que mexe com áreas de marinha colocou a história na boca do povo.
E, vamos combinar, política adora coincidência do tamanho de uma ilha.
A disputa também carrega um detalhe pesado: em 2022, a esposa do empresário de Richarlison, que vivia no imóvel durante reformas, recebeu uma ordem de reintegração de posse. Segundo relatos, ela estava grávida e teria sido retirada da residência no cumprimento da decisão.

Richarlison agora trouxe o caso de volta ao debate com poucas palavras, mas certeiras. Dizer que foi tomado é frase curta, simples e devastadora. Tem mais impacto que muito discurso de plenário. Ainda mais quando vem de um jogador popular, em pleno clima de Copa, mirando um senador que já está cercado por crise política, Vorcaro, Michelle, PL e agora uma ilha que um dia foi de Clara Nunes.
No salão, meu colorista perguntou se era para deixar a raiz mais clara. Eu respondi: clara mesmo só a Nunes, porque nessa história o resto ainda está bem escuro.