Ficar sozinho por alguns minutos parece algo simples. Mas, para muitas pessoas, o silêncio se tornou difícil de suportar. Basta o celular ficar sem bateria, a internet cair ou surgir um momento de espera para que apareça uma sensação de inquietação difícil de ignorar.
Em uma sociedade cada vez mais conectada, o que deveria ser apenas uma pausa passou a gerar desconforto, ansiedade e a necessidade imediata de alguma distração. Para Hugo Miyazaki, terapeuta da mente e especialista em comportamento humano, essa é uma das características mais marcantes de uma geração que desaprendeu a ficar sozinha.

Para o especialista, esse comportamento não está ligado apenas ao avanço da tecnologia ou das redes sociais. Segundo ele, a dificuldade de lidar com os próprios pensamentos começa muito antes, ainda na infância, por meio dos modelos familiares e das programações mentais que cada pessoa desenvolve ao longo da vida.
“As pessoas têm dificuldade de ficar sozinhas porque não foram ensinadas a ouvir a si mesmas. Não aprenderam a observar os próprios pensamentos e muito menos a confiar nas próprias intuições. Permanecer consigo mesmo exige esforço, autoconhecimento e disposição para olhar para dentro. E isso dá trabalho”, afirma.
Embora celulares, redes sociais e estímulos digitais sejam frequentemente apontados como os grandes responsáveis pela falta de concentração e pela necessidade constante de distração, Hugo acredita que eles são apenas parte de um processo mais profundo.
“O que os jovens vivem hoje é reflexo do que aprenderam dentro de casa. Muitos cresceram recebendo referências diferentes da família, da escola e de outras pessoas que participaram da sua formação. As redes sociais potencializam esse cenário, mas não são a origem dele”, explica.
Segundo o terapeuta, quando uma pessoa evita constantemente o encontro com os próprios pensamentos, ela corre o risco de viver uma vida construída a partir das expectativas e dos projetos dos outros, sem desenvolver clareza sobre seus próprios objetivos.
“Quem não aprende a ficar consigo mesmo acaba vivendo a vida de outras pessoas. Muitas vezes não constrói suas próprias metas, não desenvolve sua identidade e perde a capacidade de tomar decisões alinhadas ao que realmente deseja”, observa.
Essa dificuldade também ajuda a explicar um fenômeno cada vez mais comum: a ansiedade provocada pela ausência de estímulos. Para muitas pessoas, alguns minutos sem o celular, sem música ou sem alguma distração são suficientes para gerar desconforto. Na visão de Hugo, isso acontece porque o silêncio obriga o indivíduo a entrar em contato com questões que normalmente procura evitar.
“Em vez de focar nos próprios projetos, muitas pessoas direcionam a atenção para distrações constantes. O desconforto surge porque elas não desenvolveram o hábito de olhar para dentro e assumir o protagonismo da própria vida”, afirma.
Um dos pontos que Hugo faz questão de destacar é a diferença entre estar sozinho e sentir solidão. Segundo ele, a solitude pode ser uma ferramenta poderosa de autoconhecimento, reflexão e crescimento emocional. Já a solidão surge quando a pessoa tenta preencher internamente algo que não consegue resolver dentro de si.
“Estar sozinho é criar um espaço para ouvir a própria mente, refletir e encontrar respostas. A solidão, por outro lado, muitas vezes é a busca constante por alguém que preencha um vazio interno que não depende do outro para ser resolvido”, explica.
Para o especialista, aprender a conviver consigo mesmo é uma habilidade que impacta diretamente a qualidade dos relacionamentos, da carreira e da saúde emocional. “Quando a pessoa desenvolve essa capacidade, ela deixa de absorver os problemas dos outros como se fossem seus. Ela consegue ajudar, apoiar e se relacionar, mas sem perder sua própria identidade. Isso traz mais equilíbrio, tranquilidade e clareza para a vida.”
Ao longo de mais de duas décadas de atuação, Hugo afirma ter acompanhado inúmeros casos em que o fortalecimento mental produziu transformações significativas na vida de seus alunos e pacientes. Um dos relatos que mais o marcou foi o de uma mulher que enfrentava uma terceira reincidência de câncer. Após uma cirurgia delicada, ela estava impossibilitada de caminhar e dependia de cuidados constantes para atividades básicas.
Segundo Hugo, além do tratamento médico convencional, o trabalho desenvolvido com ela envolveu exercícios de fortalecimento mental e meditações guiadas voltadas para a mudança de perspectiva diante da própria vida. “A proposta era ajudá-la a abandonar a história que a prendia ao passado e focar no que ela ainda queria viver. A mente que contribuiu para o adoecimento também poderia se tornar uma aliada no processo de recuperação”, relata.
Segundo o especialista em mente humana,Hugo Miyazaki, meses depois, a paciente já havia retomado parte de sua rotina, resultado que, segundo ele, reforça a importância da relação entre mente, emoções e qualidade de vida.

Para Hugo Miyazaki, o desafio de aprender a ficar sozinho talvez seja uma das habilidades mais importantes dos tempos atuais. Em meio ao excesso de estímulos, informações e distrações, criar momentos de silêncio pode representar uma oportunidade de reconexão consigo mesmo.
Além dos atendimentos e treinamentos, o especialista compartilha conteúdos gratuitos por meio de lives semanais, palestras, imersões e das redes sociais, onde aborda temas relacionados ao comportamento humano, autoconhecimento e desenvolvimento mental. A mensagem que ele deixa para quem se identifica com essa dificuldade é simples: a mente pode ser treinada.
Segundo Hugo, assim como aprendemos a andar, falar e desenvolver habilidades ao longo da vida, também podemos aprender a direcionar os pensamentos de forma mais consciente. E talvez seja justamente nesse encontro consigo mesmo que estejam algumas das respostas que tantas pessoas procuram do lado de fora.