A disputa pelo comando da direita ganhou mais um capítulo nesta terça-feira. Perfis ligados a Eduardo Bolsonaro e Carlos Bolsonaro passaram a atacar candidatos apoiados por Nikolas Ferreira, acusando o grupo de dar mais espaço ao deputado mineiro do que a Flávio Bolsonaro nas campanhas eleitorais.
Eu tinha acabado de servir o chá e estava cortando uma fatia de pão na cozinha, ainda de roupão por causa desse frio de 19 graus no Cosme Velho, quando dei de cara com a expressão “Bancada Nikolas”. Pronto. Nem deu oito da manhã e a família Bolsonaro já está vendo concorrência interna onde antes só via lealdade eterna e foto de campanha com filtro verde-amarelo.

O ataque central é que candidatos ligados a Nikolas estariam fazendo “nikolismo puro”, priorizando a imagem dele em santinhos, adesivos e publicações. Um dos perfis criticou o fato de Flávio, candidato do grupo à Presidência, não aparecer como protagonista nessas peças.
A reclamação não é pequena. Para esse setor do bolsonarismo, o deputado mineiro está construindo uma estrutura própria dentro da direita, com aliados em diferentes estados, enquanto o sobrenome Bolsonaro ficaria reduzido a convidado em campanha alheia.
Eu passei manteiga no pão e quase ri da delicadeza do recado: para eles, o maior inimigo não seria o PT, nem Lula, nem a esquerda. Seria o rapaz do próprio campo político que está ficando popular demais e sorrindo grande demais nos adesivos de outros candidatos.
Em Minas Gerais, Nikolas apoia nove nomes para deputado estadual. A rede dele também alcança candidatos em São Paulo, Paraná, Pernambuco e Mato Grosso do Sul, incluindo políticos de outras siglas. É justamente essa expansão que acendeu o alerta entre aliados dos Bolsonaros.
A candidata Julia de Castro, do PL do Rio, virou exemplo da guerra silenciosa. Críticos apontaram que seus materiais destacariam Nikolas, em vez de Flávio. E, para quem vive de imagem, uma foto trocada num adesivo pode valer mais do que vinte discursos sobre união.

Eu sentei à mesa com o chá já morno e fui acompanhando a gritaria digital. Porque essa é a crise perfeita: ninguém anuncia rompimento, ninguém assume briga, todo mundo jura fidelidade a Jair Bolsonaro, mas os aliados já estão se acusando de apagar o presidenciável antes da campanha engrenar.
Nikolas nega qualquer intenção de romper com os Bolsonaros, afirma ser fiel ao ex-presidente e declara apoio a Flávio. Só que, na política, declaração de amor não resolve quando o outro sujeito aparece maior que você no santinho. A guerra ainda é fria, mas o termômetro já está fervendo.