Eu estava em casa, com um damasco na mão e o cabelo numa quiçaça que só o meu cabeleireiro resolve hoje à tarde, quando atendi a chamada de vídeo de uma amiga que passou a noite de sexta dentro do debate da TV Globo. O damasco parou no meio do caminho. Gente, a emissora montou o estúdio igual mapa de casamento de família brigada: cada lado na sua mesa e ninguém perto da porta do outro.
Funcionou assim, segundo relatos de autoridades que estavam lá: três estruturas para os convidados. Os aliados de Flávio Bolsonaro (PL) numa ponta, os de Lula (PT) na outra, e no meio uma plateia reservada só para a imprensa. Os jornalistas viraram literalmente o muro de contenção do último encontro entre os dois antes do voto.
A Globo tinha motivo para tanta engenharia. No primeiro debate presidencial, os bastidores renderam bate boca e provocação entre as equipes, e a ideia agora era impedir a reprise. Nos corredores, deu certo. Na plateia, a régua segurou o corpo, mas não segurou a boca: teve aplauso para o próprio candidato e grito contra o adversário em vários momentos.
O momento mais pesado da noite eu conto sem gracinha nenhuma. Flávio se dirigiu a Cristiane Gomes da Silva, mãe da menina Ana Clara, usando o nome da filha. Cristiane estava na plateia de Lula e respondeu: “ela morreu”. Ana Clara foi morta em 2021 por uma bala perdida, e o senador atuou como advogado de um dos suspeitos do caso. Minha amiga ficou uns segundos calada no vídeo antes de continuar. Eu também larguei o damasco no prato.
Do outro lado do muro de jornalistas, o barulho teve outro motivo. A torcida de Flávio se irritou e partiu para a gritaria quando Lula não usou todo o tempo que tinha para falar e levou alerta do moderador. E não foi uma vez só, aconteceu mais de uma, o que deixou a turma do PL cada vez mais inquieta nas cadeiras.
No fim, cada equipe puxou seu coro para o seu presidenciável, cada uma no seu cercadinho, e ninguém precisou atravessar a plateia da imprensa para provocar ninguém. A Globo entregou o debate sem barraco no corredor, o eleitor decide neste domingo (25), e eu vou correndo para o salão, porque esse cabelo não aguenta nem mais uma chamada de vídeo.