Domingo de eleição e eu de pé cedinho, guarda-chuva encostado na porta, porque o Rio resolveu amanhecer debaixo d’água justo hoje. Antes de sair do Cosme Velho fiz o que todo eleitor prudente faz: abri o aplicativo da Justiça Eleitoral para conferir minha seção. Foi parada no hall, com a chave do carro numa mão e o celular na outra, que o caso da Gizelly Bicalho chegou pelo telefone de uma amiga de São Paulo. Gente.
Na manhã de sábado, a advogada que ficou conhecida no BBB e depois passou por A Fazenda foi às redes acusar o TSE de mudar o local de votação dela na véspera do segundo turno da eleição presidencial. Contou que votou no primeiro turno em São Paulo e que, ao abrir o app, descobriu que teria de viajar até Muniz Freire, no interior do Espírito Santo, para votar neste domingo. No X, publicou prints: um com o pedido de transferência para São Paulo, aceito, e outro com a suposta mudança para o Espírito Santo. No vídeo, a legenda vinha com SOS e URGENTE.
O TSE não deixou passar. No fim da tarde, o perfil oficial do Tribunal republicou o vídeo dela com um carimbo vermelho de BOATO por cima e cravou que a informação é falsa: Gizelly continua habilitada para votar em São Paulo, e qualquer um pode conferir na aba Onde Votar do aplicativo. Junto veio a orientação que parece detalhe e resolve tudo, manter o app sempre atualizado para que a tela inicial mostre a situação real do título. A postagem passou de 11 mil curtidas e de 850 respostas.
Agora vem a parte boa. No começo da noite, Gizelly voltou mostrando o aplicativo atualizado, com Muniz Freire trocado por São Paulo, e disse que o TSE tinha acabado de mudar e que o local de votação também tinha atualizado naquela hora. Peraí. O Tribunal manda atualizar o app, ela atualiza, aparece a informação correta, e a conclusão é que alguém mexeu no cadastro dela? Antes disso, internautas já tinham respondido que o título dela não tinha mudado, e o perfil Nandx, no X, fez a consulta pública e mostrou o nome dela apto para votar na capital paulista.
Teve mais. Gizelly também acusou a Meta, dona do Instagram, de derrubar os vídeos que ela gravou sobre o caso, dizendo que dois já tinham sido apagados e que não sabia quanto tempo o próximo ficaria no ar. Até aqui, essa é a versão dela, sem nenhum documento mostrado sobre a remoção.
Eu atualizei meu app, conferi minha seção e estou indo votar molhada mesmo. Mas fica a lição para quem tem milhões de seguidores e diploma de Direito na parede: na véspera de eleição, a aba Onde Votar resolve a dúvida em trinta segundos. O vídeo com selo de urgente leva bem mais tempo para ser desmentido.