Cheguei em Petrópolis faz poucas horas para passar o fim de semana com as meninas, ainda nem tinha desfeito as malas direito quando o telefone tocou. Era o Téo, meu contato que vive grudado nas novelas mexicanas, com a voz trêmula me mandando largar tudo e assistir a um vídeo na mesma hora.
Apertei o play e dei de cara com Gabriela Spanic, a mesma que o Brasil conheceu como as gêmeas de A Usurpadora, completamente desabada, o rosto inchado de tanto chorar. A Venezuela rachou ao meio na quarta-feira sob dois terremotos que vieram quase colados, com trinta e nove segundos separando um do outro, e a atriz não se segurava diante das imagens dos prédios desabando em Caracas.
Traduzi cada palavra que ela soluçava no vídeo. Spanic implorava ao mundo que tivesse a coragem de socorrer a Venezuela, de ajudar o país a reencontrar a paz e a resgatar tanta gente que perdeu a casa e que segue soterrada neste exato momento. O Téo me confirmou os números que chegam de lá e que me deixaram sem chão, mais de cento e sessenta mortos e quase mil feridos, com famílias inteiras ainda presas embaixo dos escombros.
“A Venezuela não estava preparada para isso”, ela repetiu, lembrando que o país nunca tinha enfrentado um tremor dessa força e que não tem ambulância nem hospital para dar conta de uma desgraça desse tamanho. Foi aí que a Spanic soltou a frase que me cortou, dizendo que em boa parte do mundo importa mais o futebol do que a vida do povo dela, que para muita gente a Copa fala mais alto enquanto os venezuelanos agonizam debaixo do concreto.
Desliguei o vídeo e fiquei um tempo calada, olhando a serra de Petrópolis pela janela, pensando que nenhuma vista bonita tapa o tamanho dessa dor. Se cada um de nós que está bem mandar um pingo de ajuda para quem ficou sem nada, talvez a Gabriela tenha menos motivo para chorar amanhã