Ainda na infância, Francisco Freitas já demonstrava o fascínio pelo desenho que o acompanharia por toda a vida. Ao ver o brasão estampado na frente de uma bicicleta Monark que o irmão levou para casa, ficou encantado e passou a reproduzir a imagem em cadernos, papéis e até nas paredes. Décadas depois, essa curiosidade da infância se transformou em uma carreira dedicada à arte e à criação de estampas que traduzem sua relação com o Rio de Janeiro e a cultura brasileira.
Criado em uma família de poucos recursos, Francisco Freitas precisou deixar a escola aos 13 anos e começou a trabalhar aos 14, em uma fábrica de bolsas e sapatos. Foi ali que encontrou uma oportunidade de expressar sua criatividade, desenhando para os produtos. Mais tarde, trabalhou em uma fábrica de painéis de vidro jateado, onde desenvolvia paisagens em grandes formatos. A experiência ampliou seu contato com a criação artística e fortaleceu o desejo de transformar o desenho em profissão.
“Eu acho que comecei a me expressar artisticamente em momentos muito importantes quando fui trabalhar numa fábrica de painéis de vidro jateado. Aquilo me dava um prazer imenso de desenhar paisagens em grandes formatos e ver aquilo sendo instalado em hotéis. Para mim, era fascinante, muito estimulante”, relembra.

Aos 19 anos, chegou à Blue Man, marca carioca de moda praia, onde encontrou espaço para desenvolver seu talento. Sua primeira estampa foi bem recebida pelo fundador da empresa, David Azulay , e abriu caminho para uma trajetória que se estendeu por décadas.
Ao longo de aproximadamente 35 anos, Francisco Freitas participou da criação de coleções, desenvolveu estampas e acompanhou momentos marcantes da história da marca, construindo também uma relação de amizade com David e sua família.
“Com um mês de trabalho, tive a oportunidade de mostrar minha arte. A primeira estampa foi um sucesso. O David Azulay ficou apaixonado pelo trabalho e resolveu aumentar meu salário. O tempo foi passando, eu fui produzindo mais arte, e a Blue Man vendendo cada vez mais em cima do meu trabalho. Aquilo ia me encantando cada vez mais”, conta.

Entre as experiências que guarda com carinho está a apresentação de uma coleção no Copacabana Palace, quando foi anunciado como o artista responsável pelo trabalho e recebeu aplausos dos clientes. “Todos os clientes me aplaudiram de pé, todos vieram me abraçar. Para mim, foi muito emocionante”, recorda.
Outro marco foi a criação da estampa Manto Real, inspirada nos mantos de penas indígenas levados do Brasil durante a colonização. A peça ganhou destaque em um desfile da Blue Man por volta de 2011, aberto pela modelo trans Léa T usando um biquíni com a estampa. A criação repercutiu e se tornou uma referência na história da marca, inspirando novas versões ao longo dos anos.
“Essa estampa acabou virando um clássico dentro da Blue Man. De três em três anos ou quatro em quatro anos, eu tenho que pensar em uma nova forma de fazer uma estampa de penas que remeta ao Manto Real. Isso também me marcou muito, por ter introduzido esse clássico de estamparia dentro da Blue Man”, afirma.

Além do reconhecimento conquistado com suas estampas, a trajetória artística de Francisco Freitas também é marcada pela relação afetiva que construiu com o Rio de Janeiro. Os passeios com a família pelo Jardim Botânico, as caminhadas pela orla do Flamengo e as travessias de barca pela Baía de Guanabara ajudaram a formar seu olhar sobre a cidade. O azul do mar e do céu, a luminosidade carioca e a paisagem marcada por montanhas e vegetação passaram a ocupar lugar central em suas criações.
“Eu sempre enxergava o Rio como se fosse uma cidade azul. Quando olhava o mar, era azul; quando olhava para o céu, também. Eu acho que foi por isso que acabei trazendo um pouco desse imaginário azul para dentro da minha arte, das minhas gravuras”, explica.
Essa percepção se traduz em obras que exploram pontos de luminosidade, formas geométricas, contornos e composições abstratas. Palmeiras, flores, frutas, pássaros e cartões-postais, como o Pão de Açúcar e o Corcovado, também integram seu repertório visual.
“Eu acho que todo dia imagino fazer uma arte diferente usando os mesmos elementos, compondo de uma forma geométrica, abstrata ou só no contorno. O Rio de Janeiro, para mim, é uma fixação. Eu amo essa cidade”, diz.

A experiência na Blue Man aprofundou essa relação com o universo tropical. Ao desenvolver estampas inspiradas tanto nas paisagens cariocas quanto na flora, na fauna e nas referências culturais brasileiras, Francisco Freitas consolidou uma linguagem que continua presente em seu trabalho autoral.
“Acima de tudo, a Blue Man era muito carioca, e isso me fascinava. Quando a marca não estava falando do Rio de Janeiro, estava falando da nossa cultura, dos indígenas, da nossa flora e da nossa fauna. Isso povoava muito meu imaginário na hora de produzir as estampas e acabei trazendo para dentro da FF”, conta.
A vontade de explorar novas possibilidades artísticas levou Francisco Freitas a revisitar desenhos e projetos que guardava havia anos. A iniciativa ganhou forma quando decidiu levar cinco gravuras à Feira da Praça XV, no Rio de Janeiro, em um primeiro teste para conhecer a reação do público. Mesmo em um dia chuvoso, as pessoas paravam para observar, elogiavam as obras e algumas já demonstravam interesse em comprá-las. A resposta positiva o incentivou a investir nesse caminho.
“Eu tinha vários croquis e layouts guardados nas minhas gavetas. Desenhar é muito prazeroso para mim. É como uma cachaça, um vício. Tem gente que bebe, tem gente que fuma, eu desenho”, brinca.
Naquele momento, a iniciativa também representava uma oportunidade de contribuir com a família. Um dos filhos estava desempregado e o outro cursava a faculdade. Francisco Freitas conta que decidiu, então, tirar os projetos do papel e testar a aceitação das gravuras, sem abandonar o trabalho que já desenvolvia na Blue Man.
“No primeiro dia que levei as obras para a feira, choveu muito e quase não tinha ninguém. Mas eu notei uma coisa interessante: as pessoas que passavam com o guarda-chuva paravam para olhar, ficavam sorrindo e elogiavam. Algumas perguntavam o preço e outras compravam na mesma hora. Foi um termômetro muito positivo para mim. Pensei: ‘Cara, acho que esse é o caminho’”, relata.
Assim, a FF Arte e Design começou a ganhar forma como uma frente autoral paralela à sua trajetória na Blue Man. Para o artista, os dois trabalhos compartilham a mesma essência, marcada pelo tropicalismo e pela representação do Rio de Janeiro, embora cada um tenha suas próprias possibilidades criativas.
A iniciativa também abriu espaço para uma parceria com a Blue Man. Sharon, atual proprietária da empresa, conheceu as gravuras, escolheu algumas de suas favoritas e recebeu as obras de presente. A partir desse contato, surgiram projetos para levar a arte de Francisco Freitas a produtos como camisas, bolsas e barracas, aproximando ainda mais suas duas frentes de criação.
“Foi muito gratificante juntar meus dois amores numa coisa só. O que começou com cinco gravuras na Praça XV, em um dia de chuva, hoje é um trabalho sólido, que gera renda para toda a minha família e é elogiado por pessoas não só do Brasil, mas de várias partes do mundo”, destaca.
A trajetória também exigiu adaptação. Depois de anos trabalhando com técnicas manuais, como canetas de bico de pena, pincéis e instrumentos de desenho, ele precisou aprender a utilizar ferramentas digitais e programas gráficos. A mudança envolveu cursos, dedicação e disposição para acompanhar a transformação dos processos criativos.
“Eu sou de uma época em que desenhava na prancheta, com régua paralela, caneta de bico de pena e pincel. Hoje trabalho com uma caneta no iPad, uso o mouse e programas de desenho. Para fazer essa transição, foi muito desafiador. Tive que procurar aprender e me empenhar mais, porque aquele mundo dos anos 1980 e 1990 já não existia mais”, conta.
Hoje, a FF Arte e Design segue em expansão, com planos de desenvolver produtos como cangas, lenços, luminárias e acessórios a partir de suas gravuras. Francisco também sonha em abrir uma loja própria, onde o público possa vivenciar sua produção artística de maneira mais ampla, e deseja ver os filhos à frente do negócio.
“Meu sonho é abrir uma loja onde eu possa expor tudo aquilo que está nos meus pensamentos e desejos, produzir objetos, luminárias, móveis com a minha arte e proporcionar às pessoas uma experiência maior do que a que elas têm na feira”, afirma.
Mais do que representar paisagens, o artista busca compartilhar o sentimento que tem pela cidade onde nasceu e vive. Para ele, cada gravura permite que alguém leve um pouco desse afeto para outras partes do mundo. Enquanto continua desenhando e criando novas possibilidades para sua arte, Francisco Freitas mantém um desejo que vai além do crescimento profissional: “Meu tesão maior é desenhar. Agora, meu desejo é ver meus filhos vivendo da minha arte.”