Flávio Bolsonaro tentou apagar mais um incêndio dentro do próprio campo político nesta quarta-feira (1º). O senador repudiou a fala do blogueiro bolsonarista Paulo Figueiredo, que afirmou que mulheres “estatisticamente votam muito mal, em especial as solteiras”, e ainda chamou Michelle Bolsonaro e Damares Alves de feministas.
Eu estava no salão, já com a raiz devidamente tomada pela química e aquele cronômetro invisível da beleza correndo contra a paciência humana, quando a fofoca política chegou no celular. A cabeleireira perguntou se ardia. Eu disse: “Minha filha, ardendo mesmo está o PL Mulher, porque conseguir arrumar briga com mulher em evento para mulher é uma modalidade olímpica de desastre”.

A declaração de Flávio foi feita depois de dias de silêncio. O senador, pré-candidato à Presidência da República, tentou se descolar de Paulo Figueiredo e rejeitou que a fala do blogueiro fosse colocada em sua conta.
“Quero repudiar veementemente a fala do Paulo Figueiredo sobre as mulheres. Foi completamente equivocado. Ele não faz parte da nossa campanha. É uma pessoa que nos ajuda muito lá nos EUA. Mas em função disso as pessoas tentam colocar no meu colo uma fala que não é minha. Eu não tenho responsabilidade sobre o que ele fala, mas tenho obrigação de falar aqui, que eu me senti ofendido com a fala”, declarou Flávio.
Reparem na ginástica de salão, amores. O homem “não faz parte da campanha”, mas “ajuda muito lá nos EUA”. Não é da festa, mas sabe onde fica o banheiro, conhece o dono da casa e ainda leva gelo. A frase saiu com cara de repúdio, mas também com aquele cuidado de quem não quer quebrar completamente a ponte com o aliado.
A fala original de Paulo Figueiredo caiu como bomba porque atingiu justamente um dos pontos mais sensíveis da crise bolsonarista: as mulheres. Além de dizer que elas votam mal, “em especial as solteiras”, o blogueiro também chamou Michelle Bolsonaro e Damares Alves de feministas. E chamar Michelle e Damares de feministas dentro do bolsonarismo é quase jogar glitter no púlpito: alguém vai gritar.
Flávio, porém, não comentou a parte da publicação em que Paulo Figueiredo mirou diretamente Michelle e Damares. Ficou no repúdio geral à fala sobre as mulheres, sem cutucar a onça específica que já está mordendo a canela da pré-campanha.
E a ausência também falou alto. Damares Alves e Tereza Cristina não participaram da reunião realizada depois da polêmica. A assessoria de Tereza disse que ela tinha compromisso previamente agendado na Confederação Nacional da Indústria. Já Damares vem sendo personagem central desse desgaste desde que a crise envolvendo Michelle, Flávio e o comando do PL saiu do cochicho e foi parar no ventilador.
No salão, enquanto a química fazia seu trabalho e eu tentava não encostar a cabeça em nada, só conseguia pensar numa coisa: se isso é a pré-campanha tentando conquistar o voto feminino, imagina quando começarem a pedir voto de verdade. Porque o bolsonarismo passou anos falando em “mulher virtuosa”, “família” e “valores”, mas bastou uma crise interna para a turma transformar eleitoras em problema estatístico.

A frase de Paulo Figueiredo não foi só grosseira. Foi politicamente burra. Ela entrega, sem filtro, uma visão que muita gente ali tenta maquiar com discurso religioso, evento com mulheres e foto sorrindo. Quando a máscara escorrega, sobra isso: mulher solteira vota mal, Michelle é feminista, Damares é feminista, e Flávio precisa fingir que o incêndio não começou na cozinha dele.
Agora o senador tenta colocar distância entre ele e o blogueiro. Mas o problema é que, no momento em que Michelle saiu do PL Mulher e Damares também começou a dar sinais de irritação, qualquer fala contra mulheres vira gasolina em cima de crise familiar, partidária e eleitoral. A raiz aqui no salão até clareia com produto certo. Já a raiz desse problema, meus amores, parece bem mais difícil de retocar.