Vinte e cinco graus em Sintra, as amigas me empurrando para dentro do comboio porque hoje Lisboa tem agenda de ministra, e eu desço no Rossio já de olho na ginjinha. Nem encostei no copinho. O telefone tocou com número do Rio, e quando o Rio liga a essa hora, pá, vem samba.
Ferrugem vai gravar Legado: Ferrugem Canta Alcione no dia 28 de outubro, no Rio de Janeiro. São cerca de 13 faixas do repertório da Marrom. E agora a parte que me fez derrubar a bolsa na escadaria: a homenageada vai estar lá, cantando junto em algumas músicas. Homenagem com a dona da obra no palco, gente. Quem desafinar vai ser corrigido ao vivo, olhando no olho.

A promessa oficial é preservar a essência e os arranjos originais das canções. Traduzindo a nota para português de gente: ninguém vai mexer no que a Marrom deixou pronto. Num mercado viciado em versão acelerada para caber em quinze segundos de vídeo, segurar arranjo original é quase um ato de rebeldia. O anúncio, por enquanto, fala só em Rio de Janeiro, sem endereço da gravação.
E Ferrugem tem método. Em 2024 ele lançou Legado do Príncipe, cantando Reinaldo, o Príncipe do Pagode, que em 2013 chamou um Ferrugem ainda desconhecido para dividir a faixa Infância. Com Alcione o namoro também é antigo: em 2023, quando ela completou 50 anos de carreira, ele e Péricles foram escalados para cantar um medley da Marrom no Prêmio da Música Brasileira, no Theatro Municipal. Agora ele chama a cantora de “tia Alcione” em comunicado oficial e diz que ter ela no projeto é uma honra muito grande. O Legado virou a era dos padrinhos.
O calendário dele está mais apertado que a subida para a Pena em dia de excursão. Ferrugem completa 38 anos em 20 de outubro, grava com a Marrom oito dias depois e, em 12 de novembro, disputa em Las Vegas sua segunda indicação ao Grammy Latino, agora com Sentimento na categoria Melhor Álbum de Samba/Pagode. Tudo isso com Arrependidaço em alta e, segundo a equipe dele, mais de 12 bilhões de reproduções acumuladas.

Voltei para a ginjinha e bebi em homenagem à Marrom. Fazer um pagodeiro de 12 bilhões de plays chamar você de tia em nota de imprensa e ainda subir no palco da própria homenagem para conferir o serviço: isso, minha gente, é poder.