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Kátia Flávia
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Emilly Araújo usa a fé para questionar Erika Hilton e acende polêmica

Campeã do BBB 17 chama deputada de “homem biológico” e questiona sua atuação na defesa das mulheres. Mas o que a religião tem a ver com isso?

Kátia Flávia

14/10/2026 17h15

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Emiily publicou um vídeo em que declara apoio ao candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) e fez declarações transfóbicas contra a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP).

Amigas, eu estava no Chiado, em Lisboa, tomando uma bica, quando minhas fofoqueiras brasileiras despejaram no grupo um vídeo de Emilly Araújo. Quase precisei de uma segunda xícara. A campeã do BBB 17 resolveu misturar religião, política e identidade de gênero num pronunciamento que merece ser examinado com lupa. Segura minha bica, porque o assunto é sério.

No vídeo, Emilly afirma ser católica desde pequena, conta que frequenta uma igreja evangélica há cerca de 18 anos e defende suas convicções políticas. Até aí, cada um com sua fé. O problema aparece quando ela se refere à deputada federal Erika Hilton, uma mulher trans, como “homem biológico” e questiona sua presença na presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara. Minha filha, desde quando uma declaração de fé substitui argumentos sobre a atuação de uma parlamentar?

E tem um detalhe que me fez arregalar os olhos. Emilly diz defender a liberdade das mulheres para escolherem seus caminhos, mas questiona o lugar de Erika Hilton justamente por sua identidade de gênero. A contradição está servida. Quem pretende discutir a atuação de uma deputada tem à disposição seus projetos, votos, discursos e decisões. Por que não começar por aí? A Constituição protege a liberdade religiosa, mas essa liberdade não torna uma opinião imune a críticas.

A ex-BBB também falou sobre as dificuldades enfrentadas por estudantes pobres para permanecer na universidade pública, mencionando despesas com transporte, alimentação e materiais. É uma questão legítima e importante. Mas, no mesmo pronunciamento, voltou ao embate político e afirmou que pessoas contrárias às suas opiniões estariam desejando que ela tivesse sofrido mais violência durante seu relacionamento no BBB 17. Se essas mensagens foram enviadas, são absolutamente condenáveis. Emilly afirmou que encaminharia os ataques à sua equipe jurídica. Discordância política jamais justifica ameaças ou incentivo à agressão.

Agora, minhas amigas, existe uma ironia que nem o melhor roteirista de reality conseguiria escrever. Emilly ficou conhecida nacionalmente ao vencer um programa da TV Globo, conquistou visibilidade e hoje utiliza essa audiência para defender suas posições. É direito dela. Mas ganhar um milhão e meio de reais num reality não concede diploma em ciência política, assim como ter milhões de seguidores não transforma convicção religiosa em evidência sobre direitos constitucionais.

Erika Hilton pode e deve ter sua atuação parlamentar submetida ao escrutínio público, como qualquer representante eleita. A discussão sobre quem preside uma comissão da Câmara envolve critérios políticos, escolhas parlamentares e responsabilidades institucionais. A identidade de gênero da deputada, por si só, não demonstra incapacidade para exercer essa função.

Emilly encerrou o vídeo reafirmando seus princípios e invocando sua fé em Deus. Pois eu termino aqui, no Chiado, com uma observação: Deus pode ocupar um lugar central na vida de qualquer pessoa. Mas, quando o assunto é política, o argumento precisa sobreviver também fora da igreja.

E a carteirinha de campeã do BBB, minhas filhas, não vem com imunidade parlamentar.

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