Deolane Bezerra entrou na vida do Brasil em maio de 2021 pelo pior caminho possível: o MC Kevin morreu ao cair do quinto andar de um hotel no Rio de Janeiro, e ela virou viúva diante de câmeras, microfones e uma internet que não sabia muito bem se chorava junto ou apontava o dedo. Eu estava no carro a caminho da academia no Leblon quando liguei pro meu personal esta manhã, completamente nervosa, tentando entender como a mesma mulher que a gente viu desabar num velório chegou até a lista vermelha da Interpol em menos de cinco anos.
Da dor, Deolane foi direto para a fama. Em 2022, entrou em “A Fazenda” e virou fenômeno de audiência, xingamento, torcida e meme simultâneo, o tipo de participante que o Brasil ama odiar e odeia amar. A carreira explodiu, os contratos vieram, as viagens à Europa viraram rotina. Fiquei tentando falar com a Dayanne Bezerra e a Daniele Bezerra a manhã toda para entender o que a família está sabendo, e nenhuma das duas atendeu. O silêncio das irmãs hoje diz mais do que qualquer nota.

Em setembro de 2024, a Operação Integration da Polícia Civil de Pernambuco prendeu Deolane por suspeita de lavagem de dinheiro e jogos ilegais. Ela saiu com habeas corpus, voltou para as redes, postou, viajou e seguiu em frente como se fosse mais um capítulo chato de resolver. Eu mal conseguia me concentrar no agachamento pensando nisso, porque o que parecia um susto virou prólogo.
O que ninguém sabia, ou fingia não saber, é que desde 2019 o Ministério Público de São Paulo investigava uma teia muito maior. A Operação Vérnix, deflagrada hoje, liga Deolane a um esquema de lavagem de dinheiro da cúpula do PCC envolvendo Marcola e familiares dele, com R$ 357 milhões bloqueados, 39 veículos de luxo apreendidos e seis mandados de prisão preventiva cumpridos. Enquanto a carreira dela crescia em público, o dossiê crescia em silêncio.

Deolane passou as últimas semanas em Roma, chegou a ter o nome na lista da Difusão Vermelha da Interpol, voltou ao Brasil na quarta-feira e foi presa na quinta de manhã. Existe uma diferença fundamental entre a prisão de 2024 e a de hoje: desta vez o endereço do processo chama PCC, e habeas corpus não é o tipo de solução que se resolve numa tarde. A viúva que o Brasil conheceu em 2021 agora tem muito mais do que um velório para explicar.