Eu estava subindo a estradinha de terra que sai de Cala Salada, ainda de canga, quando o telefone tocou com aquele número de São Paulo que só aparece em dia de notícia grande. Dessa vez a notícia era boa. Sentei no capô do carro e ouvi até o fim.
Daniel foi reconhecido por um pedestre na Rua Doutor Ubaldino do Amaral, no Belenzinho. O homem tinha visto as publicações sobre o desaparecimento, acionou a Guarda Civil Metropolitana, e os agentes fizeram a verificação dos dados. Ele confirmou a própria identidade e aparentava estar bem fisicamente. Foi levado ao 30º Distrito Policial, no Tatuapé, para onde a família seguiu na mesma hora.
Segundo a polícia, ele estava consciente, sem sinais aparentes de ferimentos, e disse que tinha saído de casa por questões pessoais. Até agora não há indício de que tenha sido vítima de crime durante o período em que esteve fora. Ele desapareceu em 19 de junho, quando saiu da casa da família em Paraguaçu Paulista, no interior de São Paulo, por volta das 19h, levando apenas uma mochila preta.
Foram 44 dias de campanha nas redes sociais, apelos por informação e mobilização de gente do meio esportivo. O aniversário dele, em 29 de julho, passou sem resposta nenhuma, e foi nessa semana que a mãe, Valdirene de Paula Ferreira, falou publicamente sobre a angústia da família. Ela contou que o filho vivia sob os cuidados dos parentes desde que deixou as competições e que o levava junto para o trabalho, numa empresa de beneficiamento de mandioca.
A trajetória dele explica o tamanho da comoção. Daniel representou o Brasil na maratona dos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2021, virou um dos principais nomes da prova no país e estabeleceu o recorde da distância na América do Sul. Em 2024 veio a suspensão por doping, e ele voltou a morar com a família no interior. A mãe relatou que, mesmo longe das pistas, ele treinava escondido no meio do canavial.
Eu que sou fofoqueira de nascença vou dizer o que me ficou dessa história: uma campanha de rede social feita por uma família do interior chegou até um desconhecido andando pela Zona Leste de São Paulo, e foi esse desconhecido que devolveu um filho para uma mãe. O resto agora é assunto da família, e é onde precisa ficar.