Cláudia Abreu entrou na Justiça do Rio contra a Google após um vídeo falso anunciar sua morte no YouTube, em conteúdo produzido com Inteligência Artificial. Eu já tinha saído de casa rumo ao CCBB, maquiada, perfumada e emocionalmente pronta para fingir normalidade diante de uma retrospectiva gigante, quando a pauta chegou. O carro ainda nem tinha vencido direito o trânsito do Cosme Velho e eu já estava lendo que uma das maiores atrizes do país precisou acionar a Justiça para provar o óbvio: está viva. Minha filha, a IA perdeu a mão, a vergonha e aparentemente o cartório de óbito imaginário.
A publicação foi feita no canal “Minutos News TV”, hospedado no YouTube, plataforma administrada pela Google. O vídeo falso anunciava a morte da atriz e teria usado recursos de Inteligência Artificial para simular uma notícia com imagem e voz semelhantes às da jornalista Renata Vasconcellos, apresentadora do Jornal Nacional.

À Justiça, Cláudia pede que o vídeo seja retirado do ar imediatamente. A atriz também solicita a identificação do autor da publicação. O caso expõe mais uma vez o uso de ferramentas de IA para criar conteúdos falsos envolvendo figuras públicas, agora com uma gravidade absurda: transformar uma mentira sobre morte em caça-clique.
Cláudia Abreu, claro, está viva e em plena atividade. A atriz nasceu em 12 de outubro de 1970, no Rio de Janeiro, e tem mais de 35 anos de carreira. Começou sua trajetória no teatro, no Tablado, e estreou na televisão ainda adolescente, aos 16 anos, em “Hipertensão”, exibida em 1986.
Desde então, tornou-se uma das atrizes mais respeitadas da dramaturgia brasileira. Ganhou destaque em produções como a minissérie “Anos Rebeldes”, de 1992, trabalho pelo qual venceu o prêmio da APCA, e em novelas marcantes como “Celebridade”, de 2003, e “Cheias de Charme”, de 2012, quando viveu a inesquecível Chayene.
Mais recentemente, Cláudia esteve no ar como Filipa em “Dona de Mim”, de 2025. A atriz costuma manter a vida pessoal longe dos holofotes e foi casada com o cineasta José Henrique Fonseca, com quem teve quatro filhos.
O episódio chega num momento em que artistas, jornalistas e veículos têm lidado com a multiplicação de vídeos falsos feitos por IA. A combinação de voz clonada, imagem manipulada e título sensacionalista virou uma máquina de confusão pública. E quando essa máquina anuncia a morte de uma atriz viva, não é só mau gosto: é violência digital com fantasia de notícia.

Cláudia Abreu já interpretou vilã, diva, cantora, mulher ferida, personagem popular e figura sofisticada. Mas nem a Chayene, com todo seu arsenal de estrelismo e purpurina, merecia acordar tendo que processar plataforma porque algum espírito de necrotério algorítmico resolveu matá-la por engajamento. IA pode até imitar voz, rosto e telejornal. Só não conseguiu imitar uma coisa básica: noção.