Larguei a xícara no meio do pastel de nata. As meninas do Rio não param de ligar de dentro da CASACOR, e a notícia que me tirou do sério aqui em Sintra é simples: tem ambiente trocando de pele no meio da mostra. Quem visitou em setembro viu uma coisa. Quem for agora vê outra. Quem for no fim, outra ainda.
O mecanismo é engenhoso. Toda Infância, de Sophia Abraham, é um quarto infantil em três fases. Acolher, de 15 de setembro a 4 de outubro, com berço, poltrona de amamentação e cômoda. Descobrir, de 6 a 25 de outubro, para uma criança de uns dois anos, com cama Montessori e painel sensorial inspirado em Operários, de Tarsila do Amaral. Criar, de 27 de outubro ao encerramento, com cama de dossel, penteadeira, canto de leitura e cavalete. As peças são da coleção Feita para Crescer, desenhada pela própria designer. Ou seja, o quarto vira vitrine de um produto que se vende justamente por acompanhar o crescimento.

Do outro lado, a Cité Arquitetura fez do Ateliê Devir, com 51 metros quadrados, um palco de rodízio. Luiz Eduardo Rayol ocupou o espaço com pintura até 5 de outubro. Agora estão lá Beto Gatti e Sabrina Cuiligotti, com escultura, até 26 de outubro. Depois entra a fotografia de Ari Kaye até 8 de novembro. A cada troca, sai tudo. A arquitetura fica, inacabada de propósito, com conduítes aparentes e tapete antigo no chão. É o reality do design: três temporadas no mesmo cenário.
A 35ª edição abriu em 15 de setembro, no Centro do Rio, com o tema Mente e Coração. Ingresso a R$ 120, R$ 60 na meia, e criança até 10 anos não paga. Patrocinador de peso na fila: Deca como master, Coral, Brastemp, Claro, Fairmont Copacabana e O Globo na mídia.
Minha leitura: mostra de decoração sempre carregou um problema de negócio. Você vai uma vez, fotografa, posta e acabou. Ambiente que se transforma resolve isso. Cria motivo para voltar, gera conteúdo novo a cada fase e entrega ao patrocinador três lançamentos pelo preço de uma vitrine. É lógica de streaming aplicada a tijolo.

Para quem trabalha com marca, varejo ou evento, anote: experiência que muda com o tempo vende recorrência, e recorrência é o que todo mundo persegue. Para quem só quer ver, o recado é prático. Funciona de terça a domingo, das 12h às 22h, bilheteria até as 20h, e não tem estacionamento próprio.
Jogada inteligente, e a única falha nessa história é minha. Perdi o Acolher, estou perdendo o Descobrir e não admito perder o Criar. Já estou olhando passagem. Antes de 8 de novembro eu desembarco no Rio, e a primeira parada é a Rua Araújo Porto Alegre.