Meus amores, eu estava aqui na minha casa, no Cosme Velho, tomando meu suquinho de pera, quando recebi um vídeo da CNN Portugal que quase me fez quase precisar de atendimento médico. O cabelo ficou em pé, o suco perdeu a graça e eu descobri que a derrota eleitoral brasileira conseguiu atravessar o Atlântico sem precisar de passaporte. Porque, aparentemente, tem gente que perde uma eleição no Brasil e resolve discutir com a democracia em Lisboa.
O protagonista da confusão foi Ricardo Amaral Pessoa, apresentado como presidente da Associação Brasileira de Portugal e identificado com o bolsonarismo. Durante um debate sobre a vitória de Lula, ele afirmou que a direita brasileira não aceitava o resultado. Do outro lado estava Miguel Sousa Tavares, jornalista e comentarista português, que decidiu fazer uma pergunta tão simples que acabou se tornando o grande problema da noite: com que autoridade Ricardo falava em nome de toda a direita brasileira?

A resposta foi um espetáculo à parte. Pressionado, Ricardo recuou e classificou a própria declaração como uma “forma de expressão”. Sousa Tavares não comprou a explicação. Afinal, dizer que ninguém de determinado campo político aceita uma eleição não é exatamente uma figura de linguagem inocente. É uma generalização que coloca milhões de pessoas dentro de uma mesma posição, independentemente do que realmente pensam.
E foi aí que o debate começou a ficar delicioso. Ricardo tentou mudar o foco para denúncias e acusações envolvendo Lula e seus familiares, reclamando do tratamento dado pela imprensa a casos relacionados aos Bolsonaro. Citou a investigação das chamadas rachadinhas envolvendo Flávio Bolsonaro e apresentou outras alegações contra o campo petista. Miguel, entretanto, insistiu no ponto central: nada daquilo respondia por que a direita deveria deixar de reconhecer o resultado eleitoral.
Eu, particularmente, adoro quando uma pergunta objetiva encontra uma resposta que tenta dar três voltas no planeta antes de chegar ao assunto. É quase uma excursão turística pela falta de argumento.
O momento mais ácido veio quando a discussão passou a envolver o conhecimento dos dois sobre o Brasil. Ricardo questionou a autoridade de Sousa Tavares para falar da realidade brasileira, ressaltando que ele era português. O jornalista respondeu que já havia visitado o Brasil 57 vezes. Ricardo considerou a postura indelicada e argumentou que ser brasileiro lhe dava uma perspectiva diferente sobre o próprio país.
Mas a nacionalidade de ninguém resolve a questão principal. Ser brasileiro não transforma opinião em prova, assim como conhecer profundamente um país não concede a ninguém o direito de falar por todos os seus eleitores.
Sousa Tavares também rejeitou a ideia de que perder uma eleição justificaria deixar de respeitar seu resultado. E aqui está a diferença que parece ter escapado ao representante bolsonarista: uma coisa é fazer oposição ao governo eleito. Outra, completamente diferente, é insinuar que a derrota não deve ser aceita simplesmente porque o candidato preferido perdeu.
O confronto expôs uma contradição curiosa. Ricardo começou afirmando que a direita não aceitava a vitória de Lula, depois reconheceu que não falava literalmente por todos os eleitores e terminou discutindo quem conhecia melhor o Brasil. A pergunta original, entretanto, continuou pairando sobre o estúdio.
E eu aqui, no Cosme Velho, olhando para meu copo vazio de suco de pera, tentando compreender como uma discussão sobre o resultado de uma eleição conseguiu terminar em uma competição de carimbos no passaporte.
Porque, meus amores, Miguel Sousa Tavares pode ter visitado o Brasil 57 vezes, mas não precisou de nenhuma delas para demonstrar uma coisa elementar: democracia não é um contrato que só vale quando o nosso candidato vence.
E há uma ironia particularmente cruel nessa história: Ricardo foi à televisão defender que a direita não aceita uma derrota, mas acabou tendo dificuldade para aceitar uma simples pergunta.
Perder nas urnas faz parte da democracia. Perder o argumento ao vivo, diante das câmeras, já é uma segunda derrota inteiramente voluntária.