Philippe Bouvard, jornalista, escritor e apresentador recordista do rádio, morreu aos 96 anos, em casa, em Cannes. Ele havia se aposentado havia cerca de um ano e meio, depois de uma carreira de seis décadas na RTL, emissora onde se tornou uma das vozes mais reconhecidas da comunicação.
Eu tinha acabado de almoçar e estava escolhendo uma fruta para a sobremesa quando vi a história dele. E fiquei um tempo olhando para a tela, porque existe algo muito forte em alguém trabalhar 60 anos no mesmo lugar e só decidir parar aos 94. Não é só carreira. É uma vida inteira dividida com o público.

Bouvard entrou para o Livro dos Recordes por sua longevidade na RTL. O principal marco foi o programa de humor e entretenimento Les Grosses Têtes, que ele comandou durante 37 anos. Criada em 1977, a atração chegou a reunir mais de 2,5 milhões de ouvintes e virou uma instituição no rádio.
Enquanto lavava a fruta, pensei em como hoje tudo parece ter prazo curto: apresentador muda de emissora, programa troca de formato, contrato acaba, audiência oscila. Philippe Bouvard ficou. E ficou tanto que ser entrevistado por ele era considerado um selo de status para artistas, escritores e figuras públicas.
A marca dele era uma conversa solta, cheia de humor sarcástico, comentários culturais e tiradas rápidas. Além do rádio, Bouvard também deixou presença forte na televisão com Le Théâtre de Bouvard, exibido entre 1982 e 1986, programa de esquetes que ajudou a lançar novos humoristas.
Ele anunciou a aposentadoria em junho de 2024 e deixou o comando regular do rádio em janeiro de 2025. Mesmo assim, não rompeu de vez com a RTL: continuou aparecendo em quadros da programação e manteve uma relação próxima com a emissora que ajudou a transformar em referência.
De sobremesa escolhida, sentei mais um pouco à mesa para ler as homenagens. Emmanuel Macron chamou Bouvard de “figura livre” e destacou a voz, o humor e a liberdade de tom do apresentador. Pascal Praud, âncora da CNews, resumiu o sentimento de muita gente: “Ele foi um monumento da nossa arte”.

Philippe Bouvard também escreveu mais de 50 livros, produziu roteiros, peças de teatro e colunas. Em uma entrevista de 2019, disse que observava o próprio envelhecimento com curiosidade e defendia que a vida fosse aproveitada ao máximo. Aos 96, deixa uma daquelas carreiras que não cabem em currículo: cabem em gerações inteiras que cresceram ouvindo a mesma voz.