A nova conta de Ana Castela não é de streaming nem de venda de ingresso. Em 2026, a cantora reúne R$ 22,6 milhões em 26 contratos de shows com prefeituras, segundo dados do Portal Nacional de Contratações Públicas. E há mais: ela deve receber R$ 850 mil para cantar nesta quinta-feira em São Fidélis, no Rio, com recursos de uma emenda parlamentar solicitada por Dani Cunha, do PL.
Eu ainda estava na cozinha, juntando as coisas do café e escolhendo qual fruta ia levar para a manhã, quando comecei a somar os cachês. Deu aquele silêncio que só número grande provoca. Porque Ana Castela não está fazendo agenda de cantora de festa municipal. Ela está operando praticamente como atração oficial de orçamento público.

O show de São Fidélis será a principal atração da Expo São Fidélis. A emenda reservou R$ 1 milhão para o evento; R$ 850 mil são destinados ao cachê da Boiadeira, e o restante vai para Antony e Gabriel. A prefeitura complementará a operação com R$ 50 mil.
O dado mais curioso é que a documentação do município aponta público médio de cerca de 2 mil pessoas por dia na festa, com expectativa de 4 mil para a apresentação de Ana. Eu fechei a porta da geladeira e fiz a conta de novo, porque R$ 850 mil para um show em cidade pequena não é só cachê alto. É cachê que chega com salto, capa e entrada triunfal.
A prefeitura afirma que o dinheiro vem do programa “Turismo com Música”, cuja destinação é específica para eventos e não poderia ser usada em outras áreas. Não há acusação de irregularidade contra Ana Castela nem contra o contrato. Mas o volume de recursos públicos concentrado em uma artista que já é uma das maiores vendedoras de shows do país inevitavelmente acende discussão.
Só desde junho, a cantora foi contratada por cidades como São João del-Rei, Cruz das Almas, Itanhaém, Bauru, Maceió, Barbacena e Pouso Alegre, com cachês que giram, em muitos casos, entre R$ 820 mil e R$ 900 mil. Em Barbacena, o valor chegou a R$ 1,3 milhão.
Eu deixei a fruta na bolsa e sentei de novo à mesa, porque este é o babado que fica depois da foto com Nikolas Ferreira: a política passou, o gesto viralizou, mas os contratos continuam chegando. E agora aparece uma emenda do PL no meio de uma lista de R$ 22,6 milhões pagos por municípios.

A pergunta não é se Ana pode trabalhar ou receber bem. Pode. A pergunta é por que tantas prefeituras, algumas com população minúscula e orçamento apertado, escolheram colocar centenas de milhares de reais em uma única noite de show. Porque a Boiadeira já não está apenas dominando a parada musical: está dominando a agenda de eventos bancados pelo contribuinte.