Ronaldinho Gaúcho voltou a provocar aquela coceira coletiva no coração do torcedor brasileiro. Aos 46 anos, o Bruxo acertou com o Ravenna, clube da terceira divisão italiana, e colocou o mundo do futebol para fazer a mesma pergunta: ele vai jogar de verdade ou virou a contratação de marketing mais esperta da temporada?

As meninas ainda estavam aqui em casa, o bolo de laranja já tinha acabado e eu estava recolhendo xícara como quem tenta encerrar a segunda-feira com dignidade, quando uma delas virou o celular para mim e soltou: “Kátia, o Ronaldinho vai jogar na Itália mesmo?”. Eu parei com o pratinho na mão, porque com o Bruxo a gente nunca sabe se vem drible, publi, evento em Miami ou tudo junto no mesmo pacote.
O que se sabe é que Ronaldinho será apresentado pelo Ravenna em um evento em Miami, nos Estados Unidos, nesta semana. O clube italiano disputa a Serie C, manda seus jogos no Estádio Bruno Benelli e tenta usar o nome do brasileiro para voltar aos holofotes depois de anos longe das divisões mais importantes do futebol italiano.
Fundado em 1913, o Ravenna já teve seus momentos de maior brilho na década de 1990, quando conseguiu chegar à segunda divisão italiana. Depois disso, enfrentou crise financeira, queda de prestígio e reconstrução. Agora, com novos investimentos, o clube quer recuperar espaço, buscar acesso e, claro, chamar atenção global. E ninguém chama atenção global como Ronaldinho sorrindo com uma camisa nova.
A parte deliciosa da história é justamente a dúvida. Em algumas versões, o acerto é tratado como retorno aos gramados. Em outras, como uma operação de imagem. Ariedo Braida, vice-presidente do Ravenna e velho conhecido de Ronaldinho dos tempos de Milan, chegou a dizer que o brasileiro participaria de uma ação de marketing e não jogaria a Serie C. Depois, porém, deixou a porta aberta e afirmou que “não está descartado” vê-lo em campo.

Ou seja: nem o próprio Ravenna parece interessado em acabar com o mistério. E eu entendo. Se disser que ele não joga, perde metade da graça. Se prometer que joga, cria expectativa de menino de 46 anos dando elástico em zagueiro italiano numa terça-feira fria. Melhor deixar o torcedor sonhar e a internet trabalhar de graça.
Ronaldinho não disputa uma partida oficial desde 2015, quando passou rapidamente pelo Fluminense. Oficialmente, encerrou a carreira depois de uma trajetória que teve Copa do Mundo de 2002, Bola de Ouro em 2005, Barcelona, Milan, Atlético-MG, Libertadores, Champions e uma coleção de lances que ainda hoje parecem edição de videogame.
O próprio craque entrou no clima e falou em “novas cores, mesmo sorriso”, dizendo que quer voltar a “dançar com a bola” e escrever um novo capítulo com Ignazio Cipriani, empresário ligado ao Ravenna. Cipriani, por sua vez, trata a chegada de Ronaldinho como um golpe de efeito extraordinário para o clube. E é mesmo. Mesmo que ele jogue dez minutos, uma partida festiva ou nem jogue, o Ravenna já saiu do anonimato.
Também há um componente comercial evidente. A apresentação em Miami não é coincidência. Ronaldinho está nos Estados Unidos em meio à Copa do Mundo, e o Ravenna vai aproveitar o evento para lançar a nova camisa da equipe. Segundo a imprensa europeia, há até expectativa de exploração da marca R10 associada ao clube. Meu amor, isso é menos lateral-direito cruzando bola e mais departamento de marketing fazendo gol de placa.
Então a resposta honesta é: Ronaldinho tem ligação com o Ravenna, será apresentado como grande nome do projeto e pode até aparecer com bola no pé em algum formato, mas ninguém cravou que ele disputará a temporada da Serie C como jogador regular. A volta do Bruxo, por enquanto, tem mais fumaça de espetáculo do que cheiro de vestiário competitivo.
E quer saber? Talvez esteja tudo bem. Com Ronaldinho, a graça nunca foi só jogar. Era entrar em campo e fazer o mundo acreditar que a bola também ria. Se o Ravenna quer vender sonho, camisa e visibilidade usando esse sorriso, escolheu o feiticeiro certo. Só não me venham depois dizer que era reforço para marcar lateral em rodada de janeiro, porque aí nem a Kátia compra.