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Denzel Washington encarna Macbeth e perde a cabeça em nova versão noir do clássico

“Macbeth” chegou à prateleira de Denzel Washington há pouco tempo. Mesmo protagonizada por um dos personagens mais icônicos e cobiçados da dramaturgia de língua inglesa, a trama de Shakespeare não havia sido visitada pelo ator americano nas páginas, nos palcos nem nas telas. Ele nem mesmo viu Orson Welles e Toshiro Mifune encarnando suas célebres versões do general escocês.

Por FolhaPress 12/01/2022 7h59
Foto|Reprodução

Por Leonardo Sanchez

É no mínimo curioso, então, ver Washington estrelando “A Tragédia de Macbeth”, filme que chega agora ao Apple TV+. Mas ele se sentiu seguro ao aceitar o papel, não importasse a história, porque sabia que trabalharia com o que chama de “três dos grandes”.


“Não foi proposital, só aconteceu de eu nunca ter lido ou visto ‘Macbeth’. Eu vi a maior parte das peças de Shakespeare, mas não essa”, diz Washington em conversa com jornalistas. “Eu entrei no projeto por três motivos -William Shakespeare, Joel Coen e Frances McDormand. Não há nada além disso, esses são motivos suficientes. Ah, eu mencionei Shakespeare?”, completa, bem-humorado.


Bastou o convite do cineasta americano Joel Coen para Washington comprar uma cópia de “Macbeth” e começar a ler a grande tragédia do bardo inglês. Ele decidiu, no entanto, não assistir às performances de outros atores que encarnaram o personagem, para que suas versões não contaminassem a visão que Coen tinha para o projeto.


“A Tragédia de Macbeth” é, claramente, uma adaptação diferenciada. Ela não é tão cinematográfica quanto a estrelada por Michael Fassbender e Marion Cotillard há sete anos, mas também não é tão teatral quanto a de Ian McKellen e Judi Dench, filmada nos anos 1970.


Operando nesse limiar, Coen decidiu manter o inglês antigo do texto e capturar seus personagens em preto e branco. As cenas foram todas filmadas dentro de estúdios, diante de cenários escassos e de contornos fortes, que envolvem os personagens num constante jogo de luz e sombra. Tudo para dar ênfase ao texto original e às performances cheias de potência de Washington e Frances McDormand, a Lady Macbeth de agora.


Essa plasticidade ecoa a mise-en-scène menos realista do teatro, enquanto também evoca um misticismo acentuado, que remete ao cinema noir ou de horror, numa estética próxima do expressionismo alemão. Em cena, as sombras de Washington e McDormand ganham vida própria, contracenando uma com a outra.

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“Foi uma ótima ideia, porque havia certa nudez em tudo, meio que para expor quem aqueles personagens realmente são. Eles não têm onde se esconder”, diz Washington, sobre o visual do longa. “E o Joel me deixou à vontade na hora de gravar. Ele criou um ambiente tranquilo, criativo, onde eu me senti bem para arriscar.”


O resultado é uma provável indicação ao Oscar de melhor ator, que se somaria às indicações já recebidas no Globo de Ouro e no SAG, o prêmio do sindicato dos atores de Hollywood. Washington não é o favorito, mas isso não é um problema para alguém com oito indicações ao Oscar de atuação no currículo e duas estatuetas em casa -por “Tempo de Glória” e “Dia de Treinamento”.


Ele, aliás, aproveita a conversa para mencionar a morte de Sidney Poitier, primeiro ator negro a ganhar o homenzinho dourado e a quem ele chama de um grande amigo, com quem podia falar sobre tudo, não só sobre o ofício em comum -“a porta dele sempre esteve aberta para mim, nós tínhamos uma relação única”.


“A Tragédia de Macbeth” preserva boa parte do texto original de Shakespeare. Alguns cortes foram feitos, mas nada que comprometesse a história. Nela, acompanhamos Macbeth, um general atormentado pela profecia de três bruxas, que dizem que ele será rei da Escócia. Cego em sua ambição, ele inaugura uma matança para tirar qualquer um de seu caminho até a coroa -incluindo o monarca a quem jurou lealdade. Por trás, Lady Macbeth estimula a sua loucura.

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Pela primeira vez, Joel Coen assume sozinho a direção de um longa. Ao lado do irmão, que se diz cansado do cinema, ele já faturou quatro estatuetas do Oscar -pelos filmes “Fargo” e “Onde os Fracos Não Têm Vez”- e criou um estilo próprio de direção, marcado por um tipo de comédia absurda. Com a ruptura, decidiu seguir outro caminho.


Mas a ideia de adaptar “Macbeth” veio, na verdade, de sua mulher, Frances McDormand. Ela deu vida a Lady Macbeth nos palcos recentemente e o convenceu a levar a trama para as telas. Realeza de Hollywood, McDormand precisava de alguém potente à altura ao seu lado, e o nome de Washington surgiu de imediato.


Mesmo sem ter muita proximidade com “Macbeth”, o ator sempre teve uma relação íntima com a obra de Shakespeare. Ainda na faculdade, ele participou de uma montagem de “Otelo”. Depois, fez “Coriolano”, em 1979, “Ricardo 3º”, em 1990, e “Júlio César”, em 2005, na Broadway. Nas telas, esteve no elenco de “Muito Barulho por Nada”, que Kenneth Branagh dirigiu em 1993.


Na ocasião, o cineasta optou pelo chamado “color-blind casting”, ou algo como uma escolha de elenco cega à cor da pele. A prática vem se tornando comum na indústria, o que ajudou a naturalizar a presença de Denzel Washington no papel de um escocês do século 11.

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“A única conversa sobre ‘preto e branco’ que tivemos foi sobre a fotografia”, diz Corey Hawkins, que interpreta Macduff, compasso moral da história. “Eu vou ecoar o que Denzel sempre fala -nós estávamos lá fazendo o nosso trabalho, não pensávamos nisso. Mas é claro que há um significado enorme por trás.”
Shakespeare, afinal, é universal, dizem os atores. Os temas que o bardo inglês abordou em “Macbeth” e tantos outros clássicos são capazes de dialogar com qualquer um.


“O universal vem do específico”, gosta de repetir Washington ao falar deste e de outros projetos, assumindo que, sim, “Macbeth” é um nobre escocês do século 11, mas, em sua trajetória de ambição, traição, amor e loucura, incorpora dilemas comuns a todos, inclusive a ele próprio.


“Em algum momento isso certamente aconteceu. Nós somos humanos, somos treinados para vencer. Mas eu nunca vou admitir isso”, brinca o ator, um dos grandes nomes de Hollywood, ao ser questionado se já se viu inebriado pela fama e pelo poder.

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A TRAGÉDIA DE MACBETH
Quando Estreia nesta sexta (14), no Apple TV+
Classificação 16 anos
Elenco Denzel Washington, Frances McDormand e Corey Hawkins
Produção EUA, 2021
Direção Joel Coen

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